Que os fogos da República deixem de ser
artificiais
Vicente de Paula
Mais
um feriado para descansar... Porque motivos para comemorar não são muitos. Que
ótimo que somos uma República. Melhor ainda uma República Federativa, um Estado Democrático de Direito... Que engraçado que somos uma farsa, que belo sermos
hipócritas! Que bom acharmos tudo lindo e azul como céu de brigadeiro. Aliás,
estas e outras patentes, militares ou não, devem estar muito satisfeitos com
esta data. Foi feita por eles e para eles. Eu, pessoalmente, só tenho a festejar
o aniversário da minha tia e madrinha, que é uma das mãezonas que tenho! O resto
é lástima!
E
não é que eu seja um resmungão pessimista. É que realmente está muito difícil
ver as maravilhas descritas na Carta Magna e em outras letras legais. Basta
atentar um pouco ao bombardeio do noticiário, ainda que pouco analítico:
violência em São Paulo e em todo Brasil, nossas prisões, nosso sistema penal,
judiciário... Nem vou adentrar no marasmo legislativo, para que não se perca o
resto das esperanças. Enfim, observando tudo ou parte disso e tentando
relacionar minimamente causa e consequência... Percebermos que direito,
democracia e outros baluartes que deveriam emanar da soberania popular estão
desfalcados no mundo inteiro. Sobretudo no Brasil, onde o povo nunca travou
lutas reais pela aquisição de direitos, ou nunca as fez com convicção. Sempre
mitigou seu poder, delegando-o ao primeiro “aventureiro” que lançasse mão.
Provavelmente
o brasileiro, atiçado pelas elites, deve estar chocado com as manifestações na
Europa. Quisera eu, que com o sofrimento europeu em ter que travar mais uma
luta contra a tirania monetária. Aqui no Brasil, no máximo deve haver um
desapontamento ou temor em ter que cancelar seus pacotes turísticos ao velho
continente. Poucos são sensíveis e apoiadores dos manifestantes europeus. A
maioria desconhece absolutamente, ou sabe superficialmente o que se passa lá.
Eu mesmo sei pouquíssimo! Acompanhando o noticiário tradicional, só teria
conhecimento de um tumulto, uma algazarra que, em nome da saúde financeira
mundial, logo será controlada.
Eu
realmente torço pelo descontrole. Espero que prevaleçam os “utópicos ideais revolucionários
europeus”, muito mais avançados que os nossos. Oh novidade! Mais um aspecto em
que a Europa está anos luz a frente do Brasil! Apesar de não ser novidade, é no mínimo interessante,
como um povo tão libertário se deixou conduzir ao presente fiasco. Mais notável
é perceber é que tantas liberdades e direitos se alicerçaram a custa da
supressão de direitos de outros povos no mundo inteiro. O terrível é perceber
que a prática continua. A própria Alemanha pressiona e imperializa países
europeus em nome do bem-estar financeiro do continente, que na verdade não
passa do seu próprio. O bem estar do povo alemão ou de qualquer outro não interessa
desde que as contas estejam bem pagas.
O
grande problema é que quem paga é sempre o povo. E não especuladores
esbanjadores e incompetentes que farrearam e farreiam com todo dinheiro e agora
vêm com essa papagaiada de "medidas de austeridade". Ao inferno com
essa farsa. Eles que paguem suas contas e que sofram as consequências de suas tramóias.
É certo que o povo deve arcar com a imbecilidade de ainda manter esta corja no
poder... Porém as revoluções existem para isso, embora a maioria troque uma
corja por outra elas são necessárias, mas não redentoras. Basta que lembremos
quão revolucionários Hitler ou Stálin foram. Uma má condução neste processo
pode recuar o povo europeu a um apelo a direita totalitária, como já ocorreu.
E o
Brasil? Que tem haver com tudo isso? Possivelmente nada, pois o “espírito
revolucionário” já nos “assombrou”, mas infelizmente nunca se fez latente em
nossa carne e nosso sangue. Sempre morremos de medo do tal espírito flamejante.
A inda assim estou torcendo para que pelo
menos as fagulhas atravessem o Atlântico, como já fizeram antes. Mas que dessa
vez não se concentre em redutos de salvadores da pátria, que não passam de usurpadores
deste fogaréu. Usando-o apenas para conduzir a massa de manobra temerosa em se
queimar. Anseio o dia que o brasileiro
sentirá o ardor dos grilhões estorricando seus tornozelos a ponto de querer explodir,
com sua própria força, tais correntes! Espero mesmo que estas metáforas com
fogos aqueçam corações. E que nossas lutas deixem de ser artificiais como os
fogos que encandeiam o céu de brigadeiro da nossa República.
