Trarte

quinta-feira, 15 de novembro de 2012


Que os fogos da República deixem de ser artificiais



Vicente de Paula

Mais um feriado para descansar... Porque motivos para comemorar não são muitos. Que ótimo que somos uma República. Melhor ainda uma República Federativa, um Estado Democrático de Direito... Que engraçado que somos uma farsa, que belo sermos hipócritas! Que bom acharmos tudo lindo e azul como céu de brigadeiro. Aliás, estas e outras patentes, militares ou não, devem estar muito satisfeitos com esta data. Foi feita por eles e para eles. Eu, pessoalmente, só tenho a festejar o aniversário da minha tia e madrinha, que é uma das mãezonas que tenho! O resto é lástima!
E não é que eu seja um resmungão pessimista. É que realmente está muito difícil ver as maravilhas descritas na Carta Magna e em outras letras legais. Basta atentar um pouco ao bombardeio do noticiário, ainda que pouco analítico: violência em São Paulo e em todo Brasil, nossas prisões, nosso sistema penal, judiciário... Nem vou adentrar no marasmo legislativo, para que não se perca o resto das esperanças. Enfim, observando tudo ou parte disso e tentando relacionar minimamente causa e consequência... Percebermos que direito, democracia e outros baluartes que deveriam emanar da soberania popular estão desfalcados no mundo inteiro. Sobretudo no Brasil, onde o povo nunca travou lutas reais pela aquisição de direitos, ou nunca as fez com convicção. Sempre mitigou seu poder, delegando-o ao primeiro “aventureiro” que lançasse mão.  
Provavelmente o brasileiro, atiçado pelas elites, deve estar chocado com as manifestações na Europa. Quisera eu, que com o sofrimento europeu em ter que travar mais uma luta contra a tirania monetária. Aqui no Brasil, no máximo deve haver um desapontamento ou temor em ter que cancelar seus pacotes turísticos ao velho continente. Poucos são sensíveis e apoiadores dos manifestantes europeus. A maioria desconhece absolutamente, ou sabe superficialmente o que se passa lá. Eu mesmo sei pouquíssimo! Acompanhando o noticiário tradicional, só teria conhecimento de um tumulto, uma algazarra que, em nome da saúde financeira mundial, logo será controlada.
Eu realmente torço pelo descontrole. Espero que prevaleçam os “utópicos ideais revolucionários europeus”, muito mais avançados que os nossos. Oh novidade! Mais um aspecto em que a Europa está anos luz a frente do Brasil!  Apesar de não ser novidade, é no mínimo interessante, como um povo tão libertário se deixou conduzir ao presente fiasco. Mais notável é perceber é que tantas liberdades e direitos se alicerçaram a custa da supressão de direitos de outros povos no mundo inteiro. O terrível é perceber que a prática continua. A própria Alemanha pressiona e imperializa países europeus em nome do bem-estar financeiro do continente, que na verdade não passa do seu próprio. O bem estar do povo alemão ou de qualquer outro não interessa desde que as contas estejam bem pagas.
O grande problema é que quem paga é sempre o povo. E não especuladores esbanjadores e incompetentes que farrearam e farreiam com todo dinheiro e agora vêm com essa papagaiada de "medidas de austeridade". Ao inferno com essa farsa. Eles que paguem suas contas e que sofram as consequências de suas tramóias. É certo que o povo deve arcar com a imbecilidade de ainda manter esta corja no poder... Porém as revoluções existem para isso, embora a maioria troque uma corja por outra elas são necessárias, mas não redentoras. Basta que lembremos quão revolucionários Hitler ou Stálin foram. Uma má condução neste processo pode recuar o povo europeu a um apelo a direita totalitária, como já ocorreu.
E o Brasil? Que tem haver com tudo isso? Possivelmente nada, pois o “espírito revolucionário” já nos “assombrou”, mas infelizmente nunca se fez latente em nossa carne e nosso sangue. Sempre morremos de medo do tal espírito flamejante. A     inda assim estou torcendo para que pelo menos as fagulhas atravessem o Atlântico, como já fizeram antes. Mas que dessa vez não se concentre em redutos de salvadores da pátria, que não passam de usurpadores deste fogaréu. Usando-o apenas para conduzir a massa de manobra temerosa em se queimar.  Anseio o dia que o brasileiro sentirá o ardor dos grilhões estorricando seus tornozelos a ponto de querer explodir, com sua própria força, tais correntes! Espero mesmo que estas metáforas com fogos aqueçam corações. E que nossas lutas deixem de ser artificiais como os fogos que encandeiam o céu de brigadeiro da nossa República.