Trarte

domingo, 4 de outubro de 2015

Ocupar é preencher vidas

Dona Júlia (com microfone) conclamando a população do Parque Piauí a resistir pela praça e pela vida.

Ocupação e as lutas pelo direito à cidade, memória, cultura, meio ambiente e á vida estão acontecendo e pulsando cada vez mais forte. O foco agora é a praça do Parque Piauí, mas existem muitos lugares ameaçados como o canteiro da Frei (centro) e as famílias do Boa Esperança na zona norte de Teresina. Em União, o OcupaCibrazém também reivindica espaços públicos para uma destinação realmente pública.

Todos estes movimentos sinalizam um despertar, uma descoberta do que temos – das nossas origens, memórias, expressões... - e do que podemos. Aos poucos vamos nos empoderando daquele direito que não tem eficácia, do desejo que não tem nome, daquela liberdade que se tornou pouca.

Sim, estamos em busca da vida perdida e não aceitamos mais que passem com tratores e rolos compressores sobre a nossa existência que, por séculos, esteve viciada pelo capital. Um sistema podre  que providencialmente/arbitrariamente engessa nosso lugar no mosaico-mundo.

Este sistema está muito bem representado pela Prefeitura de Teresina que, a todo custo, tenta nos tanger ao nosso papel de escravos, que só devem existir para se matar de trabalhar e pagar tributos onerosos ao soberano, sem nenhum benefício real em troca.

Sem direito a praça, a lazer, a um transporte público de qualidade e refrigerado. Refrigerado? Pois bem não bastasse não termos acesso a este direito, ainda mais essa de derrubar 177 árvores em uma praça pra construção de um terminal megalomaníaco.

Todos nós sabemos que isto servirá de fato para os lucros de uma minoria. Enquanto a população se comprime e se desidrata em ônibus lotados num trânsito engarrafado, que não tem como fluir, pela simples questão de falta de espaço. A Prefeitura resolve o problema de espaço da nossa cidade destruindo árvores de uma praça, canteiro central arborizado de uma avenida e desalojando famílias ribeirinhas.

Francamente não há como aceitar lógica tão perversa. É impressionante como não se dão conta que o nosso "problema espacial" advém exatamente desta lógica imbecil de expandir sem perceber o que está a volta.

Sem notar que enquanto formos educados para nossa própria vaidade  de sonhar idiotamente com um carro pra cada um, uma casa pra cada dois no máximo e um planeta pra um umbigo, será impossível mesmo haver espaço e qualquer forma de vida neste planeta.

Ao longo da história, o que se viu foi a deterioração completa nossas relações com o mundo – tempo, espaço, corpo – com a vida.

Nossa relação com o espaço se limita a grades e vitrines. Não sentimos a terra, não trocamos cargas energéticas com ela, não existe mais nenhuma percepção do ambiente que nos rodeia, que nos pariu, que nos constrói e desconstrói. É tudo absurdamente vazio, desértico e claustrofóbico.

Nossa relação com o outro se resume a egoísmo, desrespeito, impaciência, intolerância e agressividade.

Nossa relação com o corpo é de estranhamento, de algo que não está junto, de carcaça abandonada a espera de uma outra vida ou de uma gaiola dourada, de negligência, desprezo.

Nossa relação com o tempo espatifou a memória e nos prendemos ao imediatismo, a repetição tosca que não se relaciona com a fertilidade e força criativa da reprodução.

MINHA NOSSAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHAHAHAHAHAHHHHHHHH!!!!!

Todas estas relações castrativas chegaram ao seu limite e já não suportamos mais sofrer submissos com os abusos grotescos que nos vem sendo impostos. Aos poucos vamos rompendo com cadeias de pseudofelicidade que só nos escravizam. Sim nós estamos avançando, ocupando territórios que não se restringem ao espaço geográfico. Estamos nos descobrindo e alcançando outras estâncias, que jamais/raramente foram experimentadas e que precisam se lançar nesse mar de acontecimentos que é viver.

Ocupar para resistir, e não simplesmente pela conquista de um domínio, ou vitória de uma batalha.  Ocupação que te abarrota de função é totalitarismo e precisamos ocupar para preencher vidas. Como a da dona Maria Júlia da Conceição Silva, que tem a sua vida preenchida na praça, relembrando as árvores que plantou e aguou ao longo de 30 anos: “Ali é um filho que eu criei”, diz a moradora, a mãe, a ocupante de corações que luta para que a praça, o verde e avida possam ocupar muito mais corações. 

domingo, 27 de setembro de 2015

VOLTEI

Maramar-PI/foto: Sarah Fontenelle TEATRO

Nestes tempos crisorentos – crispados de todas as crises possíveis... cri, cri, crrrrrriiiiiiii– me vi bombardeado por uma série de pressões que exigiam de mim um posicionamento, uma resposta (clara e específica) sobre “o que você quer da vida”, com o peso de uma identidade/credencial definida e permanente para se mostrar ao mundo.  Obviamente que este conflito não acontece apenas comigo e por isso resolvi compartilhar algumas reflexões sobre como pretendo lidar com isso.

Francamente antes de começar é preciso estar ciente de que não existe nenhuma reflexão pronta ou fórmula perfeita para enfrentar a “crise” que se configura quase existencial. Mas também adianto que não pretendo mais devagar e nem me ater a reflexões transcendentais/científicas/filosóficas.
Estou realmente buscando o caminho da simplicidade nesse caos todo. Sobretudo, porque acabei entrando num beco cheio de atrações anunciadas com luz neon e um charme burlesco que é bastante crisorento: A Arte.
“Trate bem sua arte”, dizia eu outrora... Oooooooooooooooooohhhhhhhhhhhhh céussssxxxx. Pois por todos os lados tenho ouvido de tantas bocas que me cobram exatamente isso: um tratamento mais cuidadoso, uma dedicação maior aquilo que eu tomei como o norte da minha nau a deriva prestes a naufragar e... Calma! Não podemos afundar! E chega de lamúrias sobre estar perdido. Isso não passa de perca de tempo... a não ser que a proposta seja se perder mesmo.
Mas por hora pretendo me encontrar. E uma forma incrível de autoconhecimento é a escrita. Encontrar em mim e no mundo uma escrita que nos abra a todas as experiências e sensações que ela (a escrita) pode receber e provocar. Enveredar por uma escrita artística, performática, jornalística, literária, crítica... e todas as vertentes possíveis de escrever que permitam expansão – que dilata e contrai – captando leituras e expressões daquilo que está a volta e nos impulsiona a seguir.
Durante algum tempo desprezei tudo isto e a escrita se fez um processo traumático pra mim. A capacidade de expressão através da palavra aos poucos foi tolhida por uma série de motivos confusos. Mas no meio deste caos consigo mapear algumas razões principais para isto.
 A primeira delas é o jornalismo – a cada dia mais superficial - sacraliza os princípios da neutralidade (forjada sordidamente), objetividade, ineditismo, marketing e agilidade que fazem o processo de escrever ser torturante e medíocre, completamente limitado a preceitos extremamente herméticos e a interesses mercadológicos aviltantes.
Superadas as desilusões jornalísticas procurei me debruçar em outras linguagens e acabei abandonando temporariamente a “escrita jornalística”  -e muitas outras- para me dedicar a outras formas de expressão das minhas questões.  O que é uma grande tolice, pois nossas questões e as expressões são muito amplas. Separá-las em caixinhas e departamentos é pequeno demais.
Afinal estão juntas... entrelaçadas. E o grande lance é sacar esses nós e seus percursos, entendendo que tudo está aberto para as mais variadas conexões. Aos poucos fui compreendendo que a escrita não se resume a escrever com “estas letrinhas que não dizem tudo que a gente quer dizer...”(FONTENELLE, Sarah). É possível desenvolver escritas com uma infinidade de elementos/símbolos/significados...
Daí passei a receber a escrita como um rastro, com toda a beleza e inquietude  efêmeras que esta noção traz. E que depois pretendo discorrer mais sobre. Por agora, basta apenas estar aberto a conhecer e transformar.
Esta percepção é um processo, e não vejo como erros os desvios que por (des)ventura me afastaram dela, ao contrário: foram importantes e compõe hoje espaço significativos nesta trajetória-aprendizado que é viver.
 E escrever neste momento, antes de qualquer coisa é um exercício para que eu realmente possa me sentir vivo. Vivo, aberto e alerta para conduzir o meu destino com minhas próprias mãos-palavras-desenhos-canções...
Vivo e consciente, que se um barquinho não me cabe ou está com o motor pra bater, existirão outros e mais outros barquinhos no horizonte esperando um sim sincero pra seguir adiante. E um não franco quando quiser tomar outro barco.
Vivo e decidido que também não vou ficar esperando o “eterno o movimento dos barcos”. Pois eu posso e preciso me movimentar. E além de tudo tem o mar. Mar imenso pra mergulhar... sentir o sabor das ondas, o balanço indefinido de vai e vem, a bagunça gostosa do vento nos cabelos, os grãos de sal e areia salpicados na pele dos corpos e das coisas. Simplesmente deixar passar.
Passar ar. Deixar se atravessar por este fluxo que vem como o vento, que passa pela calmaria de uma brisa ou pelo turbilhão de um furacão. Respirar fundo e sentir o ar passar pelo corpo inteiro com a certeza de que vai passar de novo e de que tudo é passageiro. Somos passageiros.
E nestas passagens resolvi voltar. Voltar não como quem quer retornar ao passado e se prender a um momento confortável que já não existe. Voltar não só a escrever. Voltar não para repetir o bem sucedido, o que funcionou. Voltar pra descobrir de onde posso partir.
Como quem foi noutro mundo e voltou. Morreu e ressuscitou. Pra reposicionar-se no tempo e espaço. Sem misticismo e/ou exacerbação, perceber que estamos vivos e somos capazes de descobrir e nos aventurar nesta vida - aqui e agora. Esta é a maior obra de arte que se pode produzir. E por me comprometer em tratar bem a arte (ou minimamente tratar de arte), volto. E volto vivo.