Trarte

domingo, 27 de setembro de 2015

VOLTEI

Maramar-PI/foto: Sarah Fontenelle TEATRO

Nestes tempos crisorentos – crispados de todas as crises possíveis... cri, cri, crrrrrriiiiiiii– me vi bombardeado por uma série de pressões que exigiam de mim um posicionamento, uma resposta (clara e específica) sobre “o que você quer da vida”, com o peso de uma identidade/credencial definida e permanente para se mostrar ao mundo.  Obviamente que este conflito não acontece apenas comigo e por isso resolvi compartilhar algumas reflexões sobre como pretendo lidar com isso.

Francamente antes de começar é preciso estar ciente de que não existe nenhuma reflexão pronta ou fórmula perfeita para enfrentar a “crise” que se configura quase existencial. Mas também adianto que não pretendo mais devagar e nem me ater a reflexões transcendentais/científicas/filosóficas.
Estou realmente buscando o caminho da simplicidade nesse caos todo. Sobretudo, porque acabei entrando num beco cheio de atrações anunciadas com luz neon e um charme burlesco que é bastante crisorento: A Arte.
“Trate bem sua arte”, dizia eu outrora... Oooooooooooooooooohhhhhhhhhhhhh céussssxxxx. Pois por todos os lados tenho ouvido de tantas bocas que me cobram exatamente isso: um tratamento mais cuidadoso, uma dedicação maior aquilo que eu tomei como o norte da minha nau a deriva prestes a naufragar e... Calma! Não podemos afundar! E chega de lamúrias sobre estar perdido. Isso não passa de perca de tempo... a não ser que a proposta seja se perder mesmo.
Mas por hora pretendo me encontrar. E uma forma incrível de autoconhecimento é a escrita. Encontrar em mim e no mundo uma escrita que nos abra a todas as experiências e sensações que ela (a escrita) pode receber e provocar. Enveredar por uma escrita artística, performática, jornalística, literária, crítica... e todas as vertentes possíveis de escrever que permitam expansão – que dilata e contrai – captando leituras e expressões daquilo que está a volta e nos impulsiona a seguir.
Durante algum tempo desprezei tudo isto e a escrita se fez um processo traumático pra mim. A capacidade de expressão através da palavra aos poucos foi tolhida por uma série de motivos confusos. Mas no meio deste caos consigo mapear algumas razões principais para isto.
 A primeira delas é o jornalismo – a cada dia mais superficial - sacraliza os princípios da neutralidade (forjada sordidamente), objetividade, ineditismo, marketing e agilidade que fazem o processo de escrever ser torturante e medíocre, completamente limitado a preceitos extremamente herméticos e a interesses mercadológicos aviltantes.
Superadas as desilusões jornalísticas procurei me debruçar em outras linguagens e acabei abandonando temporariamente a “escrita jornalística”  -e muitas outras- para me dedicar a outras formas de expressão das minhas questões.  O que é uma grande tolice, pois nossas questões e as expressões são muito amplas. Separá-las em caixinhas e departamentos é pequeno demais.
Afinal estão juntas... entrelaçadas. E o grande lance é sacar esses nós e seus percursos, entendendo que tudo está aberto para as mais variadas conexões. Aos poucos fui compreendendo que a escrita não se resume a escrever com “estas letrinhas que não dizem tudo que a gente quer dizer...”(FONTENELLE, Sarah). É possível desenvolver escritas com uma infinidade de elementos/símbolos/significados...
Daí passei a receber a escrita como um rastro, com toda a beleza e inquietude  efêmeras que esta noção traz. E que depois pretendo discorrer mais sobre. Por agora, basta apenas estar aberto a conhecer e transformar.
Esta percepção é um processo, e não vejo como erros os desvios que por (des)ventura me afastaram dela, ao contrário: foram importantes e compõe hoje espaço significativos nesta trajetória-aprendizado que é viver.
 E escrever neste momento, antes de qualquer coisa é um exercício para que eu realmente possa me sentir vivo. Vivo, aberto e alerta para conduzir o meu destino com minhas próprias mãos-palavras-desenhos-canções...
Vivo e consciente, que se um barquinho não me cabe ou está com o motor pra bater, existirão outros e mais outros barquinhos no horizonte esperando um sim sincero pra seguir adiante. E um não franco quando quiser tomar outro barco.
Vivo e decidido que também não vou ficar esperando o “eterno o movimento dos barcos”. Pois eu posso e preciso me movimentar. E além de tudo tem o mar. Mar imenso pra mergulhar... sentir o sabor das ondas, o balanço indefinido de vai e vem, a bagunça gostosa do vento nos cabelos, os grãos de sal e areia salpicados na pele dos corpos e das coisas. Simplesmente deixar passar.
Passar ar. Deixar se atravessar por este fluxo que vem como o vento, que passa pela calmaria de uma brisa ou pelo turbilhão de um furacão. Respirar fundo e sentir o ar passar pelo corpo inteiro com a certeza de que vai passar de novo e de que tudo é passageiro. Somos passageiros.
E nestas passagens resolvi voltar. Voltar não como quem quer retornar ao passado e se prender a um momento confortável que já não existe. Voltar não só a escrever. Voltar não para repetir o bem sucedido, o que funcionou. Voltar pra descobrir de onde posso partir.
Como quem foi noutro mundo e voltou. Morreu e ressuscitou. Pra reposicionar-se no tempo e espaço. Sem misticismo e/ou exacerbação, perceber que estamos vivos e somos capazes de descobrir e nos aventurar nesta vida - aqui e agora. Esta é a maior obra de arte que se pode produzir. E por me comprometer em tratar bem a arte (ou minimamente tratar de arte), volto. E volto vivo.


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