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| Maramar-PI/foto: Sarah Fontenelle TEATRO |
Nestes tempos crisorentos –
crispados de todas as crises possíveis... cri, cri, crrrrrriiiiiiii– me vi
bombardeado por uma série de pressões que exigiam de mim um posicionamento, uma
resposta (clara e específica) sobre “o que você quer da vida”, com o peso de uma
identidade/credencial definida e permanente para se mostrar ao mundo. Obviamente que este conflito não acontece
apenas comigo e por isso resolvi compartilhar algumas reflexões sobre como
pretendo lidar com isso.
Francamente antes de começar é
preciso estar ciente de que não existe nenhuma reflexão pronta ou fórmula
perfeita para enfrentar a “crise” que se configura quase existencial. Mas
também adianto que não pretendo mais devagar e nem me ater a reflexões
transcendentais/científicas/filosóficas.
Estou realmente buscando o
caminho da simplicidade nesse caos todo. Sobretudo, porque acabei entrando num
beco cheio de atrações anunciadas com luz neon e um charme burlesco que é
bastante crisorento: A Arte.
“Trate bem sua arte”, dizia eu
outrora... Oooooooooooooooooohhhhhhhhhhhhh céussssxxxx. Pois por todos os lados
tenho ouvido de tantas bocas que me cobram exatamente isso: um tratamento mais
cuidadoso, uma dedicação maior aquilo que eu tomei como o norte da minha nau a
deriva prestes a naufragar e... Calma! Não podemos afundar! E chega de lamúrias
sobre estar perdido. Isso não passa de perca de tempo... a não ser que a
proposta seja se perder mesmo.
Mas por hora pretendo me
encontrar. E uma forma incrível de autoconhecimento é a escrita. Encontrar em
mim e no mundo uma escrita que nos abra a todas as experiências e sensações que
ela (a escrita) pode receber e provocar. Enveredar por uma escrita artística,
performática, jornalística, literária, crítica... e todas as vertentes
possíveis de escrever que permitam expansão – que dilata e contrai – captando
leituras e expressões daquilo que está a volta e nos impulsiona a seguir.
Durante algum tempo desprezei tudo
isto e a escrita se fez um processo traumático pra mim. A capacidade de
expressão através da palavra aos poucos foi tolhida por uma série de motivos
confusos. Mas no meio deste caos consigo mapear algumas razões principais para
isto.
A primeira delas é o jornalismo – a cada dia
mais superficial - sacraliza os princípios da neutralidade (forjada sordidamente),
objetividade, ineditismo, marketing e agilidade que fazem o processo de
escrever ser torturante e medíocre, completamente limitado a preceitos
extremamente herméticos e a interesses mercadológicos aviltantes.
Superadas as desilusões
jornalísticas procurei me debruçar em outras linguagens e acabei abandonando
temporariamente a “escrita jornalística” -e muitas outras- para me dedicar a outras
formas de expressão das minhas questões.
O que é uma grande tolice, pois nossas questões e as expressões são muito
amplas. Separá-las em caixinhas e departamentos é pequeno demais.
Afinal estão juntas...
entrelaçadas. E o grande lance é sacar esses nós e seus percursos, entendendo
que tudo está aberto para as mais variadas conexões. Aos poucos fui
compreendendo que a escrita não se resume a escrever com “estas letrinhas que
não dizem tudo que a gente quer dizer...”(FONTENELLE, Sarah). É possível desenvolver escritas com uma
infinidade de elementos/símbolos/significados...
Daí passei a receber a escrita
como um rastro, com toda a beleza e inquietude efêmeras que esta noção traz. E que depois
pretendo discorrer mais sobre. Por agora, basta apenas estar aberto a conhecer
e transformar.
Esta percepção é um processo, e
não vejo como erros os desvios que por (des)ventura me afastaram dela, ao
contrário: foram importantes e compõe hoje espaço significativos nesta trajetória-aprendizado
que é viver.
E escrever neste momento, antes de qualquer
coisa é um exercício para que eu realmente possa me sentir vivo. Vivo, aberto e
alerta para conduzir o meu destino com minhas próprias mãos-palavras-desenhos-canções...
Vivo e consciente, que se um
barquinho não me cabe ou está com o motor pra bater, existirão outros e mais
outros barquinhos no horizonte esperando um sim sincero pra seguir adiante. E
um não franco quando quiser tomar outro barco.
Vivo e decidido que também não
vou ficar esperando o “eterno o movimento dos barcos”. Pois eu posso e preciso me
movimentar. E além de tudo tem o mar. Mar imenso pra mergulhar... sentir o
sabor das ondas, o balanço indefinido de vai e vem, a bagunça gostosa do vento
nos cabelos, os grãos de sal e areia salpicados na pele dos corpos e das coisas.
Simplesmente deixar passar.
Passar ar. Deixar se atravessar
por este fluxo que vem como o vento, que passa pela calmaria de uma brisa ou
pelo turbilhão de um furacão. Respirar fundo e sentir o ar passar pelo corpo
inteiro com a certeza de que vai passar de novo e de que tudo é passageiro.
Somos passageiros.
E nestas passagens resolvi voltar.
Voltar não como quem quer retornar ao passado e se prender a um momento
confortável que já não existe. Voltar não só a escrever. Voltar não para
repetir o bem sucedido, o que funcionou. Voltar pra descobrir de onde posso
partir.
Como quem foi noutro mundo e
voltou. Morreu e ressuscitou. Pra reposicionar-se no tempo e espaço. Sem misticismo
e/ou exacerbação, perceber que estamos vivos e somos capazes de descobrir e nos
aventurar nesta vida - aqui e agora. Esta é a maior obra de arte que se pode
produzir. E por me comprometer em tratar bem a arte (ou minimamente tratar de
arte), volto. E volto vivo.
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