Ruminado o direito e arruinando a
sociedade
Vicente de Paula
Concordo
com muitas das opiniões de Paulo Sérgio Pinheiro, advogado e integrante da
Comissão da Verdade, que foi entrevistado nesta 2ª feira no Programa Roda Viva,
da Tv Cultura. Uma destas opiniões é sobre o julgamento do mensalão. Uma
análise concisa que se aplica a todos os outros os julgamentos da Suprema Corte
e quaisquer outros tribunais. Paulo Sérgio não foi ao programa falar disso
somente, mas me chamou atenção este gancho. Ele aprecia a riqueza de detalhes, se
queixando dos votos excessivamente longos dizendo: “São votos pra estudar e não
pra ver!”
Pois
eu nem sei até que ponto é possível estudar algo tão enfadonho. Eu, como
remanescente dos currais jurídicos, não suportei tamanho engodo e não conclui o
bacharelado em Direito na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Antes de
qualquer julgamento precipitado, não estou querendo dizer que o curso de
Direito da UFMT seja um curral, apesar das possíveis analogias com agronegócio
mato-grossense insinuarem o contrário. Ao contrário, como prata da casa, não
prata de lei, atesto a qualidade da Instituição. Sobretudo, o mérito dos meus
colegas, que a propósito se formam por agora. O que realmente quero dizer é que
o Brasil está infestado de faculdades de direito e com qualidade tão duvidosa,
que tenho a impressão que a maioria dos juristas rumina a legislação e são
incapazes de lançar um olhar crítico sobre o real impacto de suas ações. De
modo que o excessivo número de faculdades, aos meus olhos, não passam de
currais onde se rumina a razão até que se chegue à ruína completa da sociedade.
Esta
minha observação não é recalque de quem não deu conta de concluir um curso
chato. Mesmo sendo chato, quando o Direito é realmente discutido e aplicado tem
o poder de se tornar belo. É admirável ver a argumentação jurídica, a dialética
a serviço da equidade. Lamentavelmente não era isso que eu via. E
definitivamente não conseguia administrar tal frustração, que juntamente com
uma série de motivos pessoais, me fez desistir de ser mais um na estatística da
OAB. Ainda assim, e não desisti jamais da “arte de discutir”. Hoje, torço para
que meus amigos da UFMT, da UFPI, UESPI, ICF, CEUT... consigam ser bons
profissionais, diante de tantos percalços. Tenho que acreditar que serão! Pois
o Brasil necessita urgentemente deles. Afinal, num país cuja soma de todas as
faculdades de direito supera a soma das que existem no resto do mundo, possui
problemas graves não só no sistema educacional, como certamente no jurídico. Em
2010, conforme dado do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), havia os 1100 cursos
que existiam no planeta eram rebatidos pelos 1240 cursos no Brasil, que hoje
devem ser bem mais. Quem quiser refrescar a memória, visite o site da ordem http://www.oab.org.br/noticia/20734/brasil-sozinho-tem-mais-faculdades-de-direito-que-todos-os-paises
Os
números são alarmantes, e sequer mencionei o inchaço nos tribunais que possuem
pilhas de processos entulhados. Mas o que realmente me espanta são os
comentários feitos sobre os julgamentos do Supremo Tribunal Federal, STF, sobretudo
o do “mensalão”, que é a bola da vez. Fico besta com o endeusamento a Joaquim
Barbosa e o ódio ingênuo ao Ricardo Lewandowski. Barbosa está condenando todo
mundo e está na crista da onda, porém basta o eminente revisor Lewandowski
discernir que o circo está armado. Eu nunca li o enooooorrrmeeee processo e
portanto, não sei se Lewandowski possui provas suficientes ao ponto de sentir-se
“confortável” ao proferir condenações no seu voto. Condenar alguém, seja lá
quem for, é algo muito sério, sendo preciso o devido processo legal e provas
satisfatórias para que isso aconteça. Não boto minha mão no fogo por ninguém
ali naquela corte. Nem por Lewandowski, nem por Barbosa, que apesar de parecer
coerente em muitos aspectos, nutre conhecida admiração pelo ex-presidente que
não sabia de nada, Lula. De todos os ministros, quem mais tem minha simpatia é a ministra Carmen Lúcia, exatamente por ser uma das mais concisas.
Realmente
eu não sei até que ponto a justiça permeia o voto dos ministros. O eu sei é que
como Pedro Sérgio disse, os votos são muito, muito, muuuuuuuiiiiiiiitoooo longos.
É absolutamente desgastante! Os próprios ministros foram flagrados em momentos
de sonolência. Acho completamente desnecessária tanta erudição. Não sei se o
fato da única Suprema Corte do mundo a ter seus julgamentos televisionados,
deslumbra os ministros ao ponto de nos massacrar com este exercício patético de
retórica. Nem mesmo duvido das briguinhas de Joaquim Barbosa e outros
acontecerem para que eles se mantenham no centro dos holofotes. O que sei é que
dentre os três poderes da República, o Judiciário é o mais prestigiado. Pudera!
A letargia e escândalos dos outros dois, faz com que os juristas ganhem espaço,
mostrando serviço. Mesmo sem celeridade parece ser o poder que mais “trabalha”,
inclusive legislando, para terror dos zeladores do ordenamento jurídico.
Ainda
assim, finco bem meus dois pés atrás deste estardalhaço todo que se faz em torno
dos ministros do STF. Mesmo de ter consciência que naquele espaço se discute
com propriedade importantes questões. Apesar disso o povo está muito distante,
pois seu entendimento é prejudicado, talvez propositalmente, por uma a
linguagem muito rebuscada e prolixa. Mais um problema para Justiça Brasileira,
que tem tantos que nem sei enumerar e explicar a maioria. Mas cabe a essa
galera nova, que está começando nesse mundo-cão, avaliar as referências
clássicas e reacionárias, abolindo de vez a arrogância que está impregnada nos
advogados. Humildade e clareza são fundamentais, para que o pedantismo jurídico
deixe de formar operadores do direito, para formar operários que não têm medo
de arregaçar as magas, desabotoar colarinhos e mandar às favas suas gravatas,
tailleurs e terninhos engomadinhos. Desonerar tanta pompa e toga auxiliaria
muito o bom andamento e entendimento da justiça.

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