Trarte

domingo, 4 de outubro de 2015

Ocupar é preencher vidas

Dona Júlia (com microfone) conclamando a população do Parque Piauí a resistir pela praça e pela vida.

Ocupação e as lutas pelo direito à cidade, memória, cultura, meio ambiente e á vida estão acontecendo e pulsando cada vez mais forte. O foco agora é a praça do Parque Piauí, mas existem muitos lugares ameaçados como o canteiro da Frei (centro) e as famílias do Boa Esperança na zona norte de Teresina. Em União, o OcupaCibrazém também reivindica espaços públicos para uma destinação realmente pública.

Todos estes movimentos sinalizam um despertar, uma descoberta do que temos – das nossas origens, memórias, expressões... - e do que podemos. Aos poucos vamos nos empoderando daquele direito que não tem eficácia, do desejo que não tem nome, daquela liberdade que se tornou pouca.

Sim, estamos em busca da vida perdida e não aceitamos mais que passem com tratores e rolos compressores sobre a nossa existência que, por séculos, esteve viciada pelo capital. Um sistema podre  que providencialmente/arbitrariamente engessa nosso lugar no mosaico-mundo.

Este sistema está muito bem representado pela Prefeitura de Teresina que, a todo custo, tenta nos tanger ao nosso papel de escravos, que só devem existir para se matar de trabalhar e pagar tributos onerosos ao soberano, sem nenhum benefício real em troca.

Sem direito a praça, a lazer, a um transporte público de qualidade e refrigerado. Refrigerado? Pois bem não bastasse não termos acesso a este direito, ainda mais essa de derrubar 177 árvores em uma praça pra construção de um terminal megalomaníaco.

Todos nós sabemos que isto servirá de fato para os lucros de uma minoria. Enquanto a população se comprime e se desidrata em ônibus lotados num trânsito engarrafado, que não tem como fluir, pela simples questão de falta de espaço. A Prefeitura resolve o problema de espaço da nossa cidade destruindo árvores de uma praça, canteiro central arborizado de uma avenida e desalojando famílias ribeirinhas.

Francamente não há como aceitar lógica tão perversa. É impressionante como não se dão conta que o nosso "problema espacial" advém exatamente desta lógica imbecil de expandir sem perceber o que está a volta.

Sem notar que enquanto formos educados para nossa própria vaidade  de sonhar idiotamente com um carro pra cada um, uma casa pra cada dois no máximo e um planeta pra um umbigo, será impossível mesmo haver espaço e qualquer forma de vida neste planeta.

Ao longo da história, o que se viu foi a deterioração completa nossas relações com o mundo – tempo, espaço, corpo – com a vida.

Nossa relação com o espaço se limita a grades e vitrines. Não sentimos a terra, não trocamos cargas energéticas com ela, não existe mais nenhuma percepção do ambiente que nos rodeia, que nos pariu, que nos constrói e desconstrói. É tudo absurdamente vazio, desértico e claustrofóbico.

Nossa relação com o outro se resume a egoísmo, desrespeito, impaciência, intolerância e agressividade.

Nossa relação com o corpo é de estranhamento, de algo que não está junto, de carcaça abandonada a espera de uma outra vida ou de uma gaiola dourada, de negligência, desprezo.

Nossa relação com o tempo espatifou a memória e nos prendemos ao imediatismo, a repetição tosca que não se relaciona com a fertilidade e força criativa da reprodução.

MINHA NOSSAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHAHAHAHAHAHHHHHHHH!!!!!

Todas estas relações castrativas chegaram ao seu limite e já não suportamos mais sofrer submissos com os abusos grotescos que nos vem sendo impostos. Aos poucos vamos rompendo com cadeias de pseudofelicidade que só nos escravizam. Sim nós estamos avançando, ocupando territórios que não se restringem ao espaço geográfico. Estamos nos descobrindo e alcançando outras estâncias, que jamais/raramente foram experimentadas e que precisam se lançar nesse mar de acontecimentos que é viver.

Ocupar para resistir, e não simplesmente pela conquista de um domínio, ou vitória de uma batalha.  Ocupação que te abarrota de função é totalitarismo e precisamos ocupar para preencher vidas. Como a da dona Maria Júlia da Conceição Silva, que tem a sua vida preenchida na praça, relembrando as árvores que plantou e aguou ao longo de 30 anos: “Ali é um filho que eu criei”, diz a moradora, a mãe, a ocupante de corações que luta para que a praça, o verde e avida possam ocupar muito mais corações. 

domingo, 27 de setembro de 2015

VOLTEI

Maramar-PI/foto: Sarah Fontenelle TEATRO

Nestes tempos crisorentos – crispados de todas as crises possíveis... cri, cri, crrrrrriiiiiiii– me vi bombardeado por uma série de pressões que exigiam de mim um posicionamento, uma resposta (clara e específica) sobre “o que você quer da vida”, com o peso de uma identidade/credencial definida e permanente para se mostrar ao mundo.  Obviamente que este conflito não acontece apenas comigo e por isso resolvi compartilhar algumas reflexões sobre como pretendo lidar com isso.

Francamente antes de começar é preciso estar ciente de que não existe nenhuma reflexão pronta ou fórmula perfeita para enfrentar a “crise” que se configura quase existencial. Mas também adianto que não pretendo mais devagar e nem me ater a reflexões transcendentais/científicas/filosóficas.
Estou realmente buscando o caminho da simplicidade nesse caos todo. Sobretudo, porque acabei entrando num beco cheio de atrações anunciadas com luz neon e um charme burlesco que é bastante crisorento: A Arte.
“Trate bem sua arte”, dizia eu outrora... Oooooooooooooooooohhhhhhhhhhhhh céussssxxxx. Pois por todos os lados tenho ouvido de tantas bocas que me cobram exatamente isso: um tratamento mais cuidadoso, uma dedicação maior aquilo que eu tomei como o norte da minha nau a deriva prestes a naufragar e... Calma! Não podemos afundar! E chega de lamúrias sobre estar perdido. Isso não passa de perca de tempo... a não ser que a proposta seja se perder mesmo.
Mas por hora pretendo me encontrar. E uma forma incrível de autoconhecimento é a escrita. Encontrar em mim e no mundo uma escrita que nos abra a todas as experiências e sensações que ela (a escrita) pode receber e provocar. Enveredar por uma escrita artística, performática, jornalística, literária, crítica... e todas as vertentes possíveis de escrever que permitam expansão – que dilata e contrai – captando leituras e expressões daquilo que está a volta e nos impulsiona a seguir.
Durante algum tempo desprezei tudo isto e a escrita se fez um processo traumático pra mim. A capacidade de expressão através da palavra aos poucos foi tolhida por uma série de motivos confusos. Mas no meio deste caos consigo mapear algumas razões principais para isto.
 A primeira delas é o jornalismo – a cada dia mais superficial - sacraliza os princípios da neutralidade (forjada sordidamente), objetividade, ineditismo, marketing e agilidade que fazem o processo de escrever ser torturante e medíocre, completamente limitado a preceitos extremamente herméticos e a interesses mercadológicos aviltantes.
Superadas as desilusões jornalísticas procurei me debruçar em outras linguagens e acabei abandonando temporariamente a “escrita jornalística”  -e muitas outras- para me dedicar a outras formas de expressão das minhas questões.  O que é uma grande tolice, pois nossas questões e as expressões são muito amplas. Separá-las em caixinhas e departamentos é pequeno demais.
Afinal estão juntas... entrelaçadas. E o grande lance é sacar esses nós e seus percursos, entendendo que tudo está aberto para as mais variadas conexões. Aos poucos fui compreendendo que a escrita não se resume a escrever com “estas letrinhas que não dizem tudo que a gente quer dizer...”(FONTENELLE, Sarah). É possível desenvolver escritas com uma infinidade de elementos/símbolos/significados...
Daí passei a receber a escrita como um rastro, com toda a beleza e inquietude  efêmeras que esta noção traz. E que depois pretendo discorrer mais sobre. Por agora, basta apenas estar aberto a conhecer e transformar.
Esta percepção é um processo, e não vejo como erros os desvios que por (des)ventura me afastaram dela, ao contrário: foram importantes e compõe hoje espaço significativos nesta trajetória-aprendizado que é viver.
 E escrever neste momento, antes de qualquer coisa é um exercício para que eu realmente possa me sentir vivo. Vivo, aberto e alerta para conduzir o meu destino com minhas próprias mãos-palavras-desenhos-canções...
Vivo e consciente, que se um barquinho não me cabe ou está com o motor pra bater, existirão outros e mais outros barquinhos no horizonte esperando um sim sincero pra seguir adiante. E um não franco quando quiser tomar outro barco.
Vivo e decidido que também não vou ficar esperando o “eterno o movimento dos barcos”. Pois eu posso e preciso me movimentar. E além de tudo tem o mar. Mar imenso pra mergulhar... sentir o sabor das ondas, o balanço indefinido de vai e vem, a bagunça gostosa do vento nos cabelos, os grãos de sal e areia salpicados na pele dos corpos e das coisas. Simplesmente deixar passar.
Passar ar. Deixar se atravessar por este fluxo que vem como o vento, que passa pela calmaria de uma brisa ou pelo turbilhão de um furacão. Respirar fundo e sentir o ar passar pelo corpo inteiro com a certeza de que vai passar de novo e de que tudo é passageiro. Somos passageiros.
E nestas passagens resolvi voltar. Voltar não como quem quer retornar ao passado e se prender a um momento confortável que já não existe. Voltar não só a escrever. Voltar não para repetir o bem sucedido, o que funcionou. Voltar pra descobrir de onde posso partir.
Como quem foi noutro mundo e voltou. Morreu e ressuscitou. Pra reposicionar-se no tempo e espaço. Sem misticismo e/ou exacerbação, perceber que estamos vivos e somos capazes de descobrir e nos aventurar nesta vida - aqui e agora. Esta é a maior obra de arte que se pode produzir. E por me comprometer em tratar bem a arte (ou minimamente tratar de arte), volto. E volto vivo.


quinta-feira, 15 de novembro de 2012


Que os fogos da República deixem de ser artificiais



Vicente de Paula

Mais um feriado para descansar... Porque motivos para comemorar não são muitos. Que ótimo que somos uma República. Melhor ainda uma República Federativa, um Estado Democrático de Direito... Que engraçado que somos uma farsa, que belo sermos hipócritas! Que bom acharmos tudo lindo e azul como céu de brigadeiro. Aliás, estas e outras patentes, militares ou não, devem estar muito satisfeitos com esta data. Foi feita por eles e para eles. Eu, pessoalmente, só tenho a festejar o aniversário da minha tia e madrinha, que é uma das mãezonas que tenho! O resto é lástima!
E não é que eu seja um resmungão pessimista. É que realmente está muito difícil ver as maravilhas descritas na Carta Magna e em outras letras legais. Basta atentar um pouco ao bombardeio do noticiário, ainda que pouco analítico: violência em São Paulo e em todo Brasil, nossas prisões, nosso sistema penal, judiciário... Nem vou adentrar no marasmo legislativo, para que não se perca o resto das esperanças. Enfim, observando tudo ou parte disso e tentando relacionar minimamente causa e consequência... Percebermos que direito, democracia e outros baluartes que deveriam emanar da soberania popular estão desfalcados no mundo inteiro. Sobretudo no Brasil, onde o povo nunca travou lutas reais pela aquisição de direitos, ou nunca as fez com convicção. Sempre mitigou seu poder, delegando-o ao primeiro “aventureiro” que lançasse mão.  
Provavelmente o brasileiro, atiçado pelas elites, deve estar chocado com as manifestações na Europa. Quisera eu, que com o sofrimento europeu em ter que travar mais uma luta contra a tirania monetária. Aqui no Brasil, no máximo deve haver um desapontamento ou temor em ter que cancelar seus pacotes turísticos ao velho continente. Poucos são sensíveis e apoiadores dos manifestantes europeus. A maioria desconhece absolutamente, ou sabe superficialmente o que se passa lá. Eu mesmo sei pouquíssimo! Acompanhando o noticiário tradicional, só teria conhecimento de um tumulto, uma algazarra que, em nome da saúde financeira mundial, logo será controlada.
Eu realmente torço pelo descontrole. Espero que prevaleçam os “utópicos ideais revolucionários europeus”, muito mais avançados que os nossos. Oh novidade! Mais um aspecto em que a Europa está anos luz a frente do Brasil!  Apesar de não ser novidade, é no mínimo interessante, como um povo tão libertário se deixou conduzir ao presente fiasco. Mais notável é perceber é que tantas liberdades e direitos se alicerçaram a custa da supressão de direitos de outros povos no mundo inteiro. O terrível é perceber que a prática continua. A própria Alemanha pressiona e imperializa países europeus em nome do bem-estar financeiro do continente, que na verdade não passa do seu próprio. O bem estar do povo alemão ou de qualquer outro não interessa desde que as contas estejam bem pagas.
O grande problema é que quem paga é sempre o povo. E não especuladores esbanjadores e incompetentes que farrearam e farreiam com todo dinheiro e agora vêm com essa papagaiada de "medidas de austeridade". Ao inferno com essa farsa. Eles que paguem suas contas e que sofram as consequências de suas tramóias. É certo que o povo deve arcar com a imbecilidade de ainda manter esta corja no poder... Porém as revoluções existem para isso, embora a maioria troque uma corja por outra elas são necessárias, mas não redentoras. Basta que lembremos quão revolucionários Hitler ou Stálin foram. Uma má condução neste processo pode recuar o povo europeu a um apelo a direita totalitária, como já ocorreu.
E o Brasil? Que tem haver com tudo isso? Possivelmente nada, pois o “espírito revolucionário” já nos “assombrou”, mas infelizmente nunca se fez latente em nossa carne e nosso sangue. Sempre morremos de medo do tal espírito flamejante. A     inda assim estou torcendo para que pelo menos as fagulhas atravessem o Atlântico, como já fizeram antes. Mas que dessa vez não se concentre em redutos de salvadores da pátria, que não passam de usurpadores deste fogaréu. Usando-o apenas para conduzir a massa de manobra temerosa em se queimar.  Anseio o dia que o brasileiro sentirá o ardor dos grilhões estorricando seus tornozelos a ponto de querer explodir, com sua própria força, tais correntes! Espero mesmo que estas metáforas com fogos aqueçam corações. E que nossas lutas deixem de ser artificiais como os fogos que encandeiam o céu de brigadeiro da nossa República.

terça-feira, 9 de outubro de 2012


Ruminado o direito e arruinando a sociedade



Vicente de Paula

Concordo com muitas das opiniões de Paulo Sérgio Pinheiro, advogado e integrante da Comissão da Verdade, que foi entrevistado nesta 2ª feira no Programa Roda Viva, da Tv Cultura. Uma destas opiniões é sobre o julgamento do mensalão. Uma análise concisa que se aplica a todos os outros os julgamentos da Suprema Corte e quaisquer outros tribunais. Paulo Sérgio não foi ao programa falar disso somente, mas me chamou atenção este gancho. Ele aprecia a riqueza de detalhes, se queixando dos votos excessivamente longos dizendo: “São votos pra estudar e não pra ver!”  
Pois eu nem sei até que ponto é possível estudar algo tão enfadonho. Eu, como remanescente dos currais jurídicos, não suportei tamanho engodo e não conclui o bacharelado em Direito na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Antes de qualquer julgamento precipitado, não estou querendo dizer que o curso de Direito da UFMT seja um curral, apesar das possíveis analogias com agronegócio mato-grossense insinuarem o contrário. Ao contrário, como prata da casa, não prata de lei, atesto a qualidade da Instituição. Sobretudo, o mérito dos meus colegas, que a propósito se formam por agora. O que realmente quero dizer é que o Brasil está infestado de faculdades de direito e com qualidade tão duvidosa, que tenho a impressão que a maioria dos juristas rumina a legislação e são incapazes de lançar um olhar crítico sobre o real impacto de suas ações. De modo que o excessivo número de faculdades, aos meus olhos, não passam de currais onde se rumina a razão até que se chegue à ruína completa da sociedade.
Esta minha observação não é recalque de quem não deu conta de concluir um curso chato. Mesmo sendo chato, quando o Direito é realmente discutido e aplicado tem o poder de se tornar belo. É admirável ver a argumentação jurídica, a dialética a serviço da equidade. Lamentavelmente não era isso que eu via. E definitivamente não conseguia administrar tal frustração, que juntamente com uma série de motivos pessoais, me fez desistir de ser mais um na estatística da OAB. Ainda assim, e não desisti jamais da “arte de discutir”. Hoje, torço para que meus amigos da UFMT, da UFPI, UESPI, ICF, CEUT... consigam ser bons profissionais, diante de tantos percalços. Tenho que acreditar que serão! Pois o Brasil necessita urgentemente deles. Afinal, num país cuja soma de todas as faculdades de direito supera a soma das que existem no resto do mundo, possui problemas graves não só no sistema educacional, como certamente no jurídico. Em 2010, conforme dado do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), havia os 1100 cursos que existiam no planeta eram rebatidos pelos 1240 cursos no Brasil, que hoje devem ser bem mais. Quem quiser refrescar a memória, visite o site da ordem http://www.oab.org.br/noticia/20734/brasil-sozinho-tem-mais-faculdades-de-direito-que-todos-os-paises
Os números são alarmantes, e sequer mencionei o inchaço nos tribunais que possuem pilhas de processos entulhados. Mas o que realmente me espanta são os comentários feitos sobre os julgamentos do Supremo Tribunal Federal, STF, sobretudo o do “mensalão”, que é a bola da vez. Fico besta com o endeusamento a Joaquim Barbosa e o ódio ingênuo ao Ricardo Lewandowski. Barbosa está condenando todo mundo e está na crista da onda, porém basta o eminente revisor Lewandowski discernir que o circo está armado. Eu nunca li o enooooorrrmeeee processo e portanto, não sei se Lewandowski possui provas suficientes ao ponto de sentir-se “confortável” ao proferir condenações no seu voto. Condenar alguém, seja lá quem for, é algo muito sério, sendo preciso o devido processo legal e provas satisfatórias para que isso aconteça. Não boto minha mão no fogo por ninguém ali naquela corte. Nem por Lewandowski, nem por Barbosa, que apesar de parecer coerente em muitos aspectos, nutre conhecida admiração pelo ex-presidente que não sabia de nada, Lula. De todos os ministros, quem mais tem minha simpatia é a ministra Carmen Lúcia, exatamente por ser uma das mais concisas.
Realmente eu não sei até que ponto a justiça permeia o voto dos ministros. O eu sei é que como Pedro Sérgio disse, os votos são muito, muito, muuuuuuuiiiiiiiitoooo longos. É absolutamente desgastante! Os próprios ministros foram flagrados em momentos de sonolência. Acho completamente desnecessária tanta erudição. Não sei se o fato da única Suprema Corte do mundo a ter seus julgamentos televisionados, deslumbra os ministros ao ponto de nos massacrar com este exercício patético de retórica. Nem mesmo duvido das briguinhas de Joaquim Barbosa e outros acontecerem para que eles se mantenham no centro dos holofotes. O que sei é que dentre os três poderes da República, o Judiciário é o mais prestigiado. Pudera! A letargia e escândalos dos outros dois, faz com que os juristas ganhem espaço, mostrando serviço. Mesmo sem celeridade parece ser o poder que mais “trabalha”, inclusive legislando, para terror dos zeladores do ordenamento jurídico. 
Ainda assim, finco bem meus dois pés atrás deste estardalhaço todo que se faz em torno dos ministros do STF. Mesmo de ter consciência que naquele espaço se discute com propriedade importantes questões. Apesar disso o povo está muito distante, pois seu entendimento é prejudicado, talvez propositalmente, por uma a linguagem muito rebuscada e prolixa. Mais um problema para Justiça Brasileira, que tem tantos que nem sei enumerar e explicar a maioria. Mas cabe a essa galera nova, que está começando nesse mundo-cão, avaliar as referências clássicas e reacionárias, abolindo de vez a arrogância que está impregnada nos advogados. Humildade e clareza são fundamentais, para que o pedantismo jurídico deixe de formar operadores do direito, para formar operários que não têm medo de arregaçar as magas, desabotoar colarinhos e mandar às favas suas gravatas, tailleurs e terninhos engomadinhos. Desonerar tanta pompa e toga auxiliaria muito o bom andamento e entendimento da justiça.

domingo, 7 de outubro de 2012


Lixo eleitoral e apodrecimento da inteligência

Vicente de Paula

Esse domingo vou justificar meu voto, de certa forma vou me eximir da responsabilidade de eleger mais um verdugo para o povo do pobre município de Timon - Maranhão.  Que é muito mais embrutecido pela miséria e ignorância que os teresinenses. Pelo menos não estou anulando meu voto, quando há opções. Essa conversa de anular voto pra deslegitimar políticos, todos sabemos que não vai dar em nada no nosso sistema eleitoral vigente. Basta passar os olhos pela Constituição. Por isso que sorte a dos teresinenses, pois eles pelo menos têm opções... Em Timon só catástrofes em forma de candidatos. Sim! Reafirmo que alguns partidos de esquerda em Teresina - PSOL, PSTU... e similares desconhecidos, ainda são uma opção ao velho esquema PSDP/PT e suas corjas respectivas (PSB, PTB, DEM, PMDB, PV...).
Aqui em Brasília ainda tive um privilégio de não ser torturado com a poluição visual e sonora que é impingida ao resto da população. A revolta beira as raias da loucura quando paramos para analisar os gastos das campanhas. Quem quiser ter noções numéricas do lixo caro que é produzido, pode conferir nesta matéria da Globo News http://globotv.globo.com/globo-news/jornal-das-dez/v/tse-faz-levantamento-sobre-lixo-produzido-por-campanhas/2172578/ Eu não vou me martirizar reproduzindo esses dados que aumentam a indignação.  Até porque sabemos bem, que o lixo das campanhas não se resume a sujeirada com papel, mas principalmente ao papelão dos candidatos com suas propostas vazias e seus acordões. Sabemos também que este lixo eleitoral sai bem mais caro do que 1 bilhão de reais declarados ao TSE. Se refletimos um pouco mais percebemos que a maioria dos candidatos ainda exorbitam esses valores, na surdina, com seus “caixas 2”, financiados por empresas corruptas que cobrarão esses pequenos investimentos em licitações grandiosas e fraudulentas. É tão sujo o tradicional jogo do poder.  
         Doloroso mesmo é perceber que o povo miserável não se dá conta destes detalhes, não porque seja ignorante pura e simplesmente, mas porque são massacrados por horas de trabalho exaustivo. São negligenciados pela prestação de serviços estatais quase inexistentes, dentre eles um dos mais essenciais e maltratados: a agonizante educação pública. A falta de instrução empurra a maioria dessas pessoas a venderem seus votos pelas coisas mais pífias que se possa imaginar. E fazem isso não por ingenuidade, pois no fundo sabem os picaretas que elegem, mas pela necessidade que os obriga mendigarem um salário de fome ou qualquer outra coisa que precisem para manter um pouco de dignidade em suas famílias. Essa troca perversa, no entanto, dificilmente vai restaurar esta dignidade fragilizada. Pois eleger gestores mafiosos produz um estado decrépito que cada vez mais vai arrancar esse resquício de dignidade que lutam para preservar.
         A sensação de piedade existe, mas não suplanta a incompreensão raivosa que faz essas pessoas permanecerem tão alienadas. O que justifica, por exemplo, as pessoas votarem aleatoriamente baseadas apenas nas pesquisas?! Talvez resposta se encontre nas teorias da espiral do silêncio, da cientista política alemã Elizabeth Noelle-Neuman, que basicamente diz que um indivíduo para não ser excluído dos demais acompanha a opinião da maioria. O medo do ostracismo justifica esse pensamento cretino?! Pra mim não! Um povo covarde, que não ousa destoar do coro dos contentes e relega o seu poder cidadão ao primeiro vigarista que se arroga “paizinho” ou “mãezinha” merece uma sina sofrida. Como diria Brecht, “infeliz o país que precisa de heróis”.
Realmente não sei por que esse paternalismo mórbido resiste no Brasil. De fato as possibilidades são escassas, mas elas ainda resistem. Não sei se a “esquerda alternativa” é a solução para os nossos problemas. Mas certamente dos males, talvez seja o menor. Infelizmente eleger candidatos assim, parece mais uma questão de sorte do que de real convicção política. Mas sorte mesmo têm os cariocas que vislumbram outras alternativas com Marcelo Freixo. Infelizmente no Piauí/Maranhão e a maior parte do Brasil, a desinformação que assola o povo, causada por uma educação precária e uma mídia vendida, não permite que se conheça tais alternativas. E os eruditos intelectuais que possuem esse discernimento ou são vendidos, ou anárquicos demais; perdem-se em suas polêmicas chochas e reclamações vazias, que sem duvida trazem importantes críticas, mas nenhuma solução aparente. A inteligência e o poder de análise crítico estão em putrefação! Daí as possibilidades reais de vitória da "esquerda alternativa" serem mínimas, e as injustiças continuarem massacrando a minha gente humilde e burra, que confunde a urna eletrônica com uma lixeira vulgar! Também serei massacrado, mas por “sorte” não estou depositando lixo nas urnas nestas eleições.

terça-feira, 25 de setembro de 2012


O amor pela arte que consome a todos nós


Vicente de Paula

Esta noite não tive que pedir licença as árvores para tolhê-las de suas flores. Os jasmineiros do CCBB - Brasília (Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília) estavam tão floridos que havia várias flores lindas espalhadas no gramado. O CCBB é um lugar incrível! Adoro ir lá, principalmente agora que os cinéfilos e críticos do 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro reclamam da acústica do Teatro Nacional, preferindo as exibições que são reprisadas gratuitamente na sala de cinema do CCBB. Eu não sou profissional e para mim as diferenças não são nítidas.
De qualquer modo prefiro o CCBB. É um prazer enorme percorrer aqueles jardins sentindo o perfume dos jasmins, a brisa fria e a beleza das flores em suas plantas originais iluminadas na penumbra noturna e por luzes artificiais. De certa forma é essa sensação de assistir “Esse amor que nos consome”, de Allan Ribeiro, vencedor do prêmio de melhor montagem. É como ver a beleza da vida no escurinho de uma sala, iluminada pela luz refletida na tela.
O filme tem o clima muito forte de documentário, os personagens são reais, talvez a história seja de ficção, sendo por isso classificada como longa de ficção. No entanto, a realidade está a flor da pele no cotidiano de um casal de artistas, bailarinos de idade avançada.  Mas esse detalhe é quase irrelevante, já que eles tem uma vitalidade vigorosa na empreitada de produzir um espetáculo e se manter no casarão, onde realizam suas atividades e que está a venda.
Mais uma vez a autoidentificação foi imediata. Aliás um filme, uma peça, uma tela, uma escultura... uma obra de arte marca uma pessoa quando existe um sentimento identitário, quando ela consegue mexer com as memórias e vivências pessoais de alguém seja por qual motivo for. Quando a gente se vê na obra de alguma maneira, significa que a arte está cumprindo uma das suas funções primordiais: cativar/envolver o público. Este filme, especificamente, me atingiu em cheio, porque aborda o universo de uma companhia de dança. Eu já fiz um ano de teatro e sou um apreciador nato. Teatro está intimamente ligado ao mundo da dança: ambos trabalham a linguagem corporal! No entanto nunca consegui disciplinar meu corpo de uma maneira que se conectasse absolutamente ao pensamento. Até minha mente tumultuada eu consegui dominar na medida do possível, mas meu corpo é uma ferramenta que não tenho total controle, não a ponto de unificá-lo com a mente.
É essa temática que é abordada no filme. Tomando por mote e por fundo o casarão que está à venda, é o lugar onde toda a arte acontece. A partir disso narra-se o cotidiano, o trabalho, os sentimentos, as pequenas discussões, os ensaios, a monotonia... em fim toda a vida destes aristas que gira em torno da montagem do espetáculo “Esse amor que nos consome”. Durante a construção desse espetáculo, vemos cenas belíssimas das ideias, dos ensaios, figurinos, músicas... é tudo sensivelmente belo. As várias cenas que remetiam a espiritualidade na vida artística deles me despertou mais uma vez profunda identificação. Rubens, um negro com tudo em cima e vaidoso, é filho de Iansã, embora todos achem que ele seja de Oxum, por causa da vaidade. Todo instante ele reintera que virou no santo e é filho de Iansã e Oxumaré. A casa onde vivem e trabalham é frequentemente visitada por compradores. No entanto, um Exu grande e viril, que só nós vemos, acompanha tudo guardando a arte naquele lar. É uma abordagem muito bonita que traz os encantos e riquezas das “religiões afro-brasileiras”.  
Um filme sem dúvidas poético, que vai muito mais além do retrato do dia-a-dia anacrônico desses artistas. Um olhar que vai fundo e consegue captar a beleza da arte nas pessoas enjeitadas, na casa, no dia, na noite, no mar, nas ruas, na cidade... Em tudo se consegue impingir a presença marcante da arte. É um filme que atinge principalmente “artistas profissionais”, mas não abarca somente os de fato e de direito, mas também aqueles que no fundo da alma são artistas. Os amadores, e/ou quaisquer seres humanos que guardam em seu interior um artista recolhido e desapercebido, por causa  da realidade tirana em que se vive. Acredito que seja essa a função deste filme: despertar o artista que vive em todos nós, nos fazendo entender que a arte está em todo lugar e em todas as pessoas. Pronta para consumir perdidamente, aqueles que ousam se entregar plenamente a sua poesia!

domingo, 23 de setembro de 2012


Desnudando Vestido de Laerte e a emancipação da sensibilidade

                                                     
                                           Vicente de Paula – referência subliminar e subversiva à androginia

Quisera eu ter tempo para acompanhar todas as palestras e filmes que compõe o 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Questões logístico-temporais me impedem de estar em vários lugares fazendo várias coisas ao mesmo tempo. E a preguiça me impede de acordar ou de me manter até o fim de alguns eventos. No entanto, não deixo de dialogar a respeito daqueles que me puxam as ideias. Vestido de Laerte, de Claudia Priscilla e Pedro Marques, é um desses e faz parte da mostra competitiva do Festival.
  É um curta-metragem de ficção, aliás porque não realidade?! Já que é um recorte, praticamente biográfico, de um momento da vida do cartunista Laerte que há pouco decidiu assumir sua “identidade feminina” questionando relações de gênero e sexo que são dogmaticamente engessadas há séculos. Só de por a prova certos tabus, que de certos não tem nada, já é um filme que puxa mesmo as ideias da gente. Além disso, tem doce interpretação de Laerte, interpretando ele mesmo. Isso é outro ponto a favor. Sempre simpatizei com a figura de Laerte, afinal eu me considero um ilustrador, e essa é uma das facetas de Laerte que sempre me despertou afinidade. Depois que ele botou uma saia, um batonzinho e subiu nas tamancas... minha admiração extravasou totalmente.e não pelo travestismo adotado, mas pela coragem de discutir algo muito mais amplo que envolve uma série de segmentos da sociedade que são oprimidos.
Com muito bom humor o filme traz esta discussão as telas, com metáforas sutis e pitorescas. Uma das cenas que acho bastante engraçada e inteligente é a comparação que Laerte faz dos suntuosos vestidos de primeira comunhão que as meninas das meninas, que continha até asas, com o terninho preto e básico dos meninos. Uma coisa tão simples dessas é carregada de análises. Uma delas é porque as coisas de meninas são repletas de detalhes? Por que nas lojas ditas unsex o departamento feminino é imensamente maior que o masculino que está as traças?! Porque a moda parece está voltada só para elas?! Porque elas usam vestidos, saias, calças e um guarda-roupa repleto de assessórios e peças diferenciadas, enquanto os homens que se contentem com o basicão jeans&camiseta?!
Bom, até agora só falamos de questões ligadas ao mercado e consumo, porque lamentavelmente é o que se tem mais visibilidade em tempos capitais como o nosso. Mas obviamente que isso se estende as searas do comportamento, sentimento, sociedade e etc. Os papéis destinados a homens e mulheres estão bem definidos. E ai de quem ousar desafiá-los. Aí retoma-se os porquês. Por que esta necessidade tirana de diferençar homens e mulheres?! A resposta é complexa, mas basicamente envolve o fetiche obsoleto de dominar as mulheres, sob a justificativa principal de garantir os genes do macho em sua prole. Se essa explicação era estúpida há muitos anos atrás, que dirá no século XXI, com o advento dos exames de DNA, pílula e etc. As mulheres aos poucos se libertam disso, e vão subvertendo essa ficção ditatorial. Avançaram muito, e hoje suas conquistas superam muito o simples direito de usar calças. Enquanto os homens estão atrasadíssimos na emancipação por sensibilidade, delicadezas, afeto, paternidade... E saias!
Num mundo tão diverso, “certos” critérios e classificações são extremamente obsoletos. Só na categoria homossexual existe uma série de possibilidades. Na categoria heterossexual temos até crossdessers... É uma multiplicidade de manifestações do ser que é uma completa idiotice essa mania de categorizar tudo. Tentar classificar como instrumento de orientação ou mesmo de pesquisa é até válido, mas na maioria das vezes ineficazes. O grande problema é que não se classifica para ajudar as pessoas, mas para impor a elas uma série de normas sufocantes, que não tem funcionalidade no convívio social. O único interesse, cretino, em “denominar” comportamentos é para que uma das “denominações”, dita correta, prevaleça e suplante as outras.
O filme sobre Laerte é emocionante e divertido e traz muito mais do que meras questões escatológicas. E transcende ao direito que ele na sua condição de ser humano do gênero feminino de usar o toillet feminino. Nada mais justo não?! Não sei, as mulheres podem se sentirem desconfortáveis ao dividir este espaço íntimo com alguém que tenha um pênis no meio das pernas. E se não for o Laerte, mas um hétero tarado fingindo feminilidade?! Francamente não sei! O que eu sei é que essa discussão tem que ser feita abertamente, de peito aberto. E se as mulheres quiserem tirar a blusa e sutiã pra ficarem mais a vontade?! Discutiremos também, porque o que interessa é igualdade e o bem estar e ser de toda sociedade!