Trarte

domingo, 23 de setembro de 2012


Desnudando Vestido de Laerte e a emancipação da sensibilidade

                                                     
                                           Vicente de Paula – referência subliminar e subversiva à androginia

Quisera eu ter tempo para acompanhar todas as palestras e filmes que compõe o 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Questões logístico-temporais me impedem de estar em vários lugares fazendo várias coisas ao mesmo tempo. E a preguiça me impede de acordar ou de me manter até o fim de alguns eventos. No entanto, não deixo de dialogar a respeito daqueles que me puxam as ideias. Vestido de Laerte, de Claudia Priscilla e Pedro Marques, é um desses e faz parte da mostra competitiva do Festival.
  É um curta-metragem de ficção, aliás porque não realidade?! Já que é um recorte, praticamente biográfico, de um momento da vida do cartunista Laerte que há pouco decidiu assumir sua “identidade feminina” questionando relações de gênero e sexo que são dogmaticamente engessadas há séculos. Só de por a prova certos tabus, que de certos não tem nada, já é um filme que puxa mesmo as ideias da gente. Além disso, tem doce interpretação de Laerte, interpretando ele mesmo. Isso é outro ponto a favor. Sempre simpatizei com a figura de Laerte, afinal eu me considero um ilustrador, e essa é uma das facetas de Laerte que sempre me despertou afinidade. Depois que ele botou uma saia, um batonzinho e subiu nas tamancas... minha admiração extravasou totalmente.e não pelo travestismo adotado, mas pela coragem de discutir algo muito mais amplo que envolve uma série de segmentos da sociedade que são oprimidos.
Com muito bom humor o filme traz esta discussão as telas, com metáforas sutis e pitorescas. Uma das cenas que acho bastante engraçada e inteligente é a comparação que Laerte faz dos suntuosos vestidos de primeira comunhão que as meninas das meninas, que continha até asas, com o terninho preto e básico dos meninos. Uma coisa tão simples dessas é carregada de análises. Uma delas é porque as coisas de meninas são repletas de detalhes? Por que nas lojas ditas unsex o departamento feminino é imensamente maior que o masculino que está as traças?! Porque a moda parece está voltada só para elas?! Porque elas usam vestidos, saias, calças e um guarda-roupa repleto de assessórios e peças diferenciadas, enquanto os homens que se contentem com o basicão jeans&camiseta?!
Bom, até agora só falamos de questões ligadas ao mercado e consumo, porque lamentavelmente é o que se tem mais visibilidade em tempos capitais como o nosso. Mas obviamente que isso se estende as searas do comportamento, sentimento, sociedade e etc. Os papéis destinados a homens e mulheres estão bem definidos. E ai de quem ousar desafiá-los. Aí retoma-se os porquês. Por que esta necessidade tirana de diferençar homens e mulheres?! A resposta é complexa, mas basicamente envolve o fetiche obsoleto de dominar as mulheres, sob a justificativa principal de garantir os genes do macho em sua prole. Se essa explicação era estúpida há muitos anos atrás, que dirá no século XXI, com o advento dos exames de DNA, pílula e etc. As mulheres aos poucos se libertam disso, e vão subvertendo essa ficção ditatorial. Avançaram muito, e hoje suas conquistas superam muito o simples direito de usar calças. Enquanto os homens estão atrasadíssimos na emancipação por sensibilidade, delicadezas, afeto, paternidade... E saias!
Num mundo tão diverso, “certos” critérios e classificações são extremamente obsoletos. Só na categoria homossexual existe uma série de possibilidades. Na categoria heterossexual temos até crossdessers... É uma multiplicidade de manifestações do ser que é uma completa idiotice essa mania de categorizar tudo. Tentar classificar como instrumento de orientação ou mesmo de pesquisa é até válido, mas na maioria das vezes ineficazes. O grande problema é que não se classifica para ajudar as pessoas, mas para impor a elas uma série de normas sufocantes, que não tem funcionalidade no convívio social. O único interesse, cretino, em “denominar” comportamentos é para que uma das “denominações”, dita correta, prevaleça e suplante as outras.
O filme sobre Laerte é emocionante e divertido e traz muito mais do que meras questões escatológicas. E transcende ao direito que ele na sua condição de ser humano do gênero feminino de usar o toillet feminino. Nada mais justo não?! Não sei, as mulheres podem se sentirem desconfortáveis ao dividir este espaço íntimo com alguém que tenha um pênis no meio das pernas. E se não for o Laerte, mas um hétero tarado fingindo feminilidade?! Francamente não sei! O que eu sei é que essa discussão tem que ser feita abertamente, de peito aberto. E se as mulheres quiserem tirar a blusa e sutiã pra ficarem mais a vontade?! Discutiremos também, porque o que interessa é igualdade e o bem estar e ser de toda sociedade! 

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