Trarte

quarta-feira, 19 de setembro de 2012



Discussões sobre a situação e rumos do cinema nacional


Vicente de Paula



Hoje aconteceu o 2° dia do 45° Festival de Brasília de Cinema Brasileiro. As discussões e seminários desta edição são interessantíssimos, embora frequentemente tenha a sensação delas serem cíclicas e sem direcionamentos concretos. Ontem participei de um diálogo sobre cinema infantil e hoje à tarde participei do “Seminário Tendências do Cinema Contemporâneo: Gêneros Cinematográficos e suas interfaces” mediado pela professora de audiovisual da UnB, que para minha grata surpresa descobri que uma piauiense de Teresina. Na mesa estavam presentes Ataíde Braga, Eduardo Santos Mendes, Guile Martins e Adirley Queirós.
No geral, as falas deste seminário traçaram importantes conclusões sobre atual situação do cinema brasileiro. Sobretudo no que diz respeito à questão de gênero e temática do nosso cinema. O que ficou nítido é que todos os palestrantes concordavam que esta questão de gênero é complexa e difícil de classificar, de modo que preferiam se referir a temática dos filmes. Eduardo Santos Mendes até brincou com essa questão dizendo que nas locadoras o cinema brasileiro é classificado como cinema brasileiro, não há subdivisões em drama, comédia, terror... apenas cinema brasileiro. De acordo com a observação dele essas subdivisões existem para filmes estrangeiros e não para produção nacional. Os motivos disso? Nada justificado claramente. Especulou-se inclusive o fato da cultura brasileira ser tão complexa e misturada faz que os filmes acabem por perder determinadas taxações de gênero. Não sou nenhum especialista no assunto, mas na prática percebemos que existem divisões sim e classificamos invariavelmente ainda que erroneamente. Se existe ou não existe gênero e quais critérios para definir não foi algo explicado no seminário, aliás, o tema que mais ganhou dimensão foi o da produção/exibição/distribuição de filme. Na verdade, esse tem sido tema recorrente em todas as mesas que tenho participado.
Ataíde Braga é incisivo nas suas opiniões sobre esse e outros tantos ele fez o questionamento que achei bastante oportuno: “Pra que produzir tanto? Pra não exibir nada?! Pra não distribuir nada?!” Paira a dúvida no ar. O que se tem certeza é que a qualidade de muito dessas produções é bastante duvidosa e as questionamentos sobre essa problemática beira questões filosóficas: Afinal ser ou não ser filme? Ser ou não ser cinemas? Segundo Ataíde muito desses produtos de fato são filmes, mas daí chegar a ser cinema o caminho é outro. Segundo ele, as produções brasileiras são caretas e que nesta última década foram produzidos 680 filmes, dos quais apenas 100 foram para o mercado. Não cabe a mim traças as coordenadas deste caminho. Acredito que só estudiosos e analistas de cinema podem determinar o que de fato seja cinema. O que tenho certeza, em concordância com Ataíde Braga, é que não dá pra determinar tais critérios baseados meramente na massa e em bilheterias astronômicas. Dentro dessa questão da produção cinematográfica é interessante também o ponto de vista de Adirley Queiróis e suas opiniões sobre editais e cinema de periferia. Para ele é preciso romper preconceitos com a produção dependente de editais juntamente com a discriminação sofrida pelos periféricos. Ele defende que os cineastas devem sim buscar editais, principalmente porque cineastas precisam se manter. A respeito da exibição ele fala que fatalmente muita da distribuição tem sua potencialidade fadada a escolas, ruas, Feira do rolo... e precisa urgentemente se expandir e extrapolar os guetos.
Diante da explanação de frustrações, opiniões, dramas particulares, verdades universais contestáveis, teorias cinematográficas... É que fazer cinema de qualidade é uma pedreira, e que os canais e oportunidades são muitos, mas ainda assim emplacar com um filme não é uma tarefa fácil, parecendo-me até que é uma coisa muito de momento e de sorte, talvez de moda como teria dito Ataíde Braga. Inclusive uma dos posicionamentos dele que clarificou na minha mente a função do cineasta e do artista de um modo geral. Segundo ele os cineastas não se preocupam com a distribuição e exibição de filmes. Até aí achei uma leviandade, uma negligência... mas ao concluir seu pensamento alertou que a preocupação do verdadeiro cineasta é com a percepção, com as leituras, com o aprofundamento das discussões da sua obra e não necessariamente com o público que vai consumi-la, mas com o público que vai analisá-la. Assim deve ser o artista; Sempre atento em promover reflexões e sensações que provoquem diálogos e transformações não se limitando a reproduzir mediocridades e “coModismos”!  

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