Discussões sobre a situação e rumos do cinema nacional
Hoje
aconteceu o 2° dia do 45° Festival de Brasília de Cinema Brasileiro. As
discussões e seminários desta edição são interessantíssimos, embora
frequentemente tenha a sensação delas serem cíclicas e sem direcionamentos
concretos. Ontem participei de um diálogo sobre cinema infantil e hoje à tarde
participei do “Seminário Tendências do Cinema
Contemporâneo: Gêneros Cinematográficos e suas interfaces” mediado pela
professora de audiovisual da UnB, que para minha grata surpresa descobri que
uma piauiense de Teresina. Na mesa estavam presentes Ataíde Braga, Eduardo
Santos Mendes, Guile Martins e Adirley Queirós.
No
geral, as falas deste seminário traçaram importantes conclusões sobre atual
situação do cinema brasileiro. Sobretudo no que diz respeito à questão de
gênero e temática do nosso cinema. O que ficou nítido é que todos os
palestrantes concordavam que esta questão de gênero é complexa e difícil de
classificar, de modo que preferiam se referir a temática dos filmes. Eduardo
Santos Mendes até brincou com essa questão dizendo que nas locadoras o cinema
brasileiro é classificado como cinema brasileiro, não há subdivisões em drama,
comédia, terror... apenas cinema brasileiro. De acordo com a observação dele
essas subdivisões existem para filmes estrangeiros e não para produção
nacional. Os motivos disso? Nada justificado claramente. Especulou-se inclusive
o fato da cultura brasileira ser tão complexa e misturada faz que os filmes
acabem por perder determinadas taxações de gênero. Não sou nenhum especialista
no assunto, mas na prática percebemos que existem divisões sim e classificamos
invariavelmente ainda que erroneamente. Se existe ou não existe gênero e quais
critérios para definir não foi algo explicado no seminário, aliás, o tema que
mais ganhou dimensão foi o da produção/exibição/distribuição de filme. Na
verdade, esse tem sido tema recorrente em todas as mesas que tenho participado.
Ataíde
Braga é incisivo nas suas opiniões sobre esse e outros tantos ele fez o
questionamento que achei bastante oportuno: “Pra que produzir tanto? Pra não
exibir nada?! Pra não distribuir nada?!” Paira a dúvida no ar. O que se tem
certeza é que a qualidade de muito dessas produções é bastante duvidosa e as
questionamentos sobre essa problemática beira questões filosóficas: Afinal ser
ou não ser filme? Ser ou não ser cinemas? Segundo Ataíde muito desses produtos
de fato são filmes, mas daí chegar a ser cinema o caminho é outro. Segundo ele,
as produções brasileiras são caretas e que nesta última década foram produzidos
680 filmes, dos quais apenas 100 foram para o mercado. Não cabe a mim traças as
coordenadas deste caminho. Acredito que só estudiosos e analistas de cinema
podem determinar o que de fato seja cinema. O que tenho certeza, em
concordância com Ataíde Braga, é que não dá pra determinar tais critérios
baseados meramente na massa e em bilheterias astronômicas. Dentro dessa questão
da produção cinematográfica é interessante também o ponto de vista de Adirley
Queiróis e suas opiniões sobre editais e cinema de periferia. Para ele é
preciso romper preconceitos com a produção dependente de editais juntamente com
a discriminação sofrida pelos periféricos. Ele defende que os cineastas devem
sim buscar editais, principalmente porque cineastas precisam se manter. A
respeito da exibição ele fala que fatalmente muita da distribuição tem sua
potencialidade fadada a escolas, ruas, Feira do rolo... e precisa urgentemente
se expandir e extrapolar os guetos.
Diante
da explanação de frustrações, opiniões, dramas particulares, verdades
universais contestáveis, teorias cinematográficas... É que fazer cinema de
qualidade é uma pedreira, e que os canais e oportunidades são muitos, mas ainda
assim emplacar com um filme não é uma tarefa fácil, parecendo-me até que é uma
coisa muito de momento e de sorte, talvez de moda como teria dito Ataíde Braga.
Inclusive uma dos posicionamentos dele que clarificou na minha mente a função
do cineasta e do artista de um modo geral. Segundo ele os cineastas não se
preocupam com a distribuição e exibição de filmes. Até aí achei uma leviandade,
uma negligência... mas ao concluir seu pensamento alertou que a preocupação do
verdadeiro cineasta é com a percepção, com as leituras, com o aprofundamento
das discussões da sua obra e não necessariamente com o público que vai consumi-la,
mas com o público que vai analisá-la. Assim deve ser o artista; Sempre atento
em promover reflexões e sensações que provoquem diálogos e transformações não
se limitando a reproduzir mediocridades e “coModismos”!

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