Trarte

sexta-feira, 21 de setembro de 2012


Paulo Emílio, Pagu e nossa identidade cinematográfica

Paulo Emílio Salles Gomes e Patrícia Galvão


Vicente de Paula

Sempre gostei de cinema, mas nunca fui cinéfilo. E isso não é papo de viciado que não consegue admitir o vício, nunca fui cinéfilo por falta de conhecimento profundo a respeito de cinema Acredito que a cinefilia está ou pelo menos não deveria está relacionada não só ao consumo inexorável de filmes, mas a análise e estudos sobre cinema. De certa forma é isso que Paulo Emílio Salles Gomes inspira.
A primeira vez que ouvi falar em Paulo Emílio foi numa matéria na revista Piauí de 2007. http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-6/ficcao/cemiterioO que me chamou atenção na reportagem foi mencionarem que Paulo Emílio nutria uma paixão por Pagú, Patrícia Galvão. A autoidentificação foi imediata. Sou um eterno apaixonado pela vida e obra desta fascinante mulher! Pesquisei um pouco mais sobre Paulo Emílio, constatei que era discípulo de Oswald de Andrade e talvez daí venha sua admiração por Pagu. Descobri também  que foi casado com Lygia Fagundes Telles era crítico de cinema, mas não me aprofundei muito não sei o porquê.
Felizmente agora tive a oportunidade de retomar este processo. Ontem, 5ª feira, ocorreu no Kubitshek Plaza Hotel um seminário sobre Paulo Emílio e a crítica cinematográfica com tema: “Atividade ainda cíclica? e Ensaio Cinema Brasileiro – Uma trajetória no subdesenvolvimento” A moderadora da mesa era Ivonete Pinto. Os palestrantes Ismail Xavier e Alfredo Manevy. Meu pequeno atraso me impediu de ouvir toda a fala de Manevy, mas dentre as suas observações uma que destaco é sobre nosso subdesenvolvimento cultural, que foi um dos temas preponderantes. Alfredo nos fala que para Paulo Emílio um sistema desenvolvido deve possuir pontos de irradiação independentes entre si. No cinema não poderia ser diferente. Paulo Emílio defendia uma rede cinematográfica que fosse descentralizada e espalhada por todo país.
         Ismail Xavier foi quem destrinchou mesmo a Trajetória do Subdesenvolvimento, claro que não totalmente, até porque o tempo não permitiria. Ele nos traz Paulo Emílio como um delineador de processos, que define análises e conjuntura de filmes. E cutuca com citações da obra, reiterando que a nossa situação colonial de subdesenvolvimento está presente em tudo, nossos hábitos, cultura e inclusive no cinema. Daí vem a proposta de Paulo Emílio querer romper com isso através da ideia de nação, buscando assim uma identidade nacional para nosso cinema. Ismail comenta que na literatura isso é mais nítido, segundo ele literatura e jornalismo... as letras de um modo geral tem uma função simbólica pra formular esta ideia de nação conforme as ideias de Habermas. Ele nos fala que para Antonio Candido a literatura brasileira conseguiu encontrar esta identidade nacional, ainda que com uma série de deficiências é nossa e “se nós não a amássemos, quem o faria?!” No cinema esta identidade não foi construída. É basicamente neste ponto que gira o trabalho de Paulo Emílio.
Para ele são diversos os fatores para a essa construção desta identidade. Um destes é a relação “ocupante e ocupado” no cinema. O nosso cinema não conseguiu sair da esfera de dominação do ocupante, basicamente classe média alta. Ismail destacou esse como um dos maiores impeditivos para ainda não termos constituído ainda uma identidade nacional no cinema. Para elaborar isso seria fundamental preciso estabelecer uma relação de diálogo com o público. Não basta os filmes brasileiros terem boa vitrine em importantes festivais. Se não existir um público assíduo que sustente a indústria cinematográfica no Brasil, toda essa glória é inútil e continuaremos numa deriva identitária.
Parece cruel e capitalista. Mas é uma realidade! De que adianta uma imensa produção cinematográfica se o público não vai ter acesso?! É preciso criar instrumentos e políticas para que o público se torne consumidor capaz de sustentar um mercado forte e com identidade própria. O viés econômico é um dos passos. Evidentemente que uma plateia passivamente consumista não é nada interessante para nossa identidade. É preciso disseminar também a qualidade e o senso crítico nas produções e no público. Acredito que Paulo Emílio pretendia um cinema capaz de cumprir sua função social crítica aliado a um público de ocupantes e ocupados que visse e refletisse cinema. Ele reconhece a revolução do cinema novo como algo que chegou mais perto de refletir nossa identidade. Mas não alvejou o grande público e não porque fosse intelectualizado, mas porque nossa estrutura de subdesenvolvimento está impregnada de tal forma que um povo com educação tão precária jamais atentaria para algo como cinema novo. Além disso, a o processo de autoria era mais importante que o de mercadoria e prevaleceu o dilema ocupante e ocupado O cinema novo foi produzido por ocupantes para ocupados, que subjugados não conseguiram nem participar nem absorver o cinema novo.  
Identidades a parte, ainda não conheço muito do pensamento de Paulo Emílio sobre cinema, mas estes seminários estão sendo esclarecedores para conhecer sua personalidade e entender um pouco dos rumos do cinema nacional e a possível consolidação de uma identidade. O que é certo para mim é que as contribuições de figuras com Paulo Emílio e Pagu se fazem urgentes na cultura brasileira. Reconhecer suas obra e vidas é importante, não para reproduzi-los e imitá-los. Pois isso incide no risco de nos transformarmos em reacionários, desapercebendo nossa própria realidade. Devemos aprender a militância cultural deles buscando uma cultura autêntica, com qualidade diversa, crítica e democrática! De antemão, respondo que sim ao questionamento do título do seminário que vou participar nesta tarde: “Seminário Paulo Emílio e a crítica cinematográfica – Presença de Paulo Emílio no pensamento cinematográfico brasileiro: Ela ainda existe?” Sim! E talvez o pequeno incêndio no 3° andar ontem seja uma fênix reavivando este pensamento que ainda resiste e deve se expandir! Assim como a presença de Pagu e outros artistas atemporais que sempre inspirarão identidades pessoais e sobretudo nossa identidade artístico-cultural.

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