Trarte

terça-feira, 25 de setembro de 2012


O amor pela arte que consome a todos nós


Vicente de Paula

Esta noite não tive que pedir licença as árvores para tolhê-las de suas flores. Os jasmineiros do CCBB - Brasília (Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília) estavam tão floridos que havia várias flores lindas espalhadas no gramado. O CCBB é um lugar incrível! Adoro ir lá, principalmente agora que os cinéfilos e críticos do 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro reclamam da acústica do Teatro Nacional, preferindo as exibições que são reprisadas gratuitamente na sala de cinema do CCBB. Eu não sou profissional e para mim as diferenças não são nítidas.
De qualquer modo prefiro o CCBB. É um prazer enorme percorrer aqueles jardins sentindo o perfume dos jasmins, a brisa fria e a beleza das flores em suas plantas originais iluminadas na penumbra noturna e por luzes artificiais. De certa forma é essa sensação de assistir “Esse amor que nos consome”, de Allan Ribeiro, vencedor do prêmio de melhor montagem. É como ver a beleza da vida no escurinho de uma sala, iluminada pela luz refletida na tela.
O filme tem o clima muito forte de documentário, os personagens são reais, talvez a história seja de ficção, sendo por isso classificada como longa de ficção. No entanto, a realidade está a flor da pele no cotidiano de um casal de artistas, bailarinos de idade avançada.  Mas esse detalhe é quase irrelevante, já que eles tem uma vitalidade vigorosa na empreitada de produzir um espetáculo e se manter no casarão, onde realizam suas atividades e que está a venda.
Mais uma vez a autoidentificação foi imediata. Aliás um filme, uma peça, uma tela, uma escultura... uma obra de arte marca uma pessoa quando existe um sentimento identitário, quando ela consegue mexer com as memórias e vivências pessoais de alguém seja por qual motivo for. Quando a gente se vê na obra de alguma maneira, significa que a arte está cumprindo uma das suas funções primordiais: cativar/envolver o público. Este filme, especificamente, me atingiu em cheio, porque aborda o universo de uma companhia de dança. Eu já fiz um ano de teatro e sou um apreciador nato. Teatro está intimamente ligado ao mundo da dança: ambos trabalham a linguagem corporal! No entanto nunca consegui disciplinar meu corpo de uma maneira que se conectasse absolutamente ao pensamento. Até minha mente tumultuada eu consegui dominar na medida do possível, mas meu corpo é uma ferramenta que não tenho total controle, não a ponto de unificá-lo com a mente.
É essa temática que é abordada no filme. Tomando por mote e por fundo o casarão que está à venda, é o lugar onde toda a arte acontece. A partir disso narra-se o cotidiano, o trabalho, os sentimentos, as pequenas discussões, os ensaios, a monotonia... em fim toda a vida destes aristas que gira em torno da montagem do espetáculo “Esse amor que nos consome”. Durante a construção desse espetáculo, vemos cenas belíssimas das ideias, dos ensaios, figurinos, músicas... é tudo sensivelmente belo. As várias cenas que remetiam a espiritualidade na vida artística deles me despertou mais uma vez profunda identificação. Rubens, um negro com tudo em cima e vaidoso, é filho de Iansã, embora todos achem que ele seja de Oxum, por causa da vaidade. Todo instante ele reintera que virou no santo e é filho de Iansã e Oxumaré. A casa onde vivem e trabalham é frequentemente visitada por compradores. No entanto, um Exu grande e viril, que só nós vemos, acompanha tudo guardando a arte naquele lar. É uma abordagem muito bonita que traz os encantos e riquezas das “religiões afro-brasileiras”.  
Um filme sem dúvidas poético, que vai muito mais além do retrato do dia-a-dia anacrônico desses artistas. Um olhar que vai fundo e consegue captar a beleza da arte nas pessoas enjeitadas, na casa, no dia, na noite, no mar, nas ruas, na cidade... Em tudo se consegue impingir a presença marcante da arte. É um filme que atinge principalmente “artistas profissionais”, mas não abarca somente os de fato e de direito, mas também aqueles que no fundo da alma são artistas. Os amadores, e/ou quaisquer seres humanos que guardam em seu interior um artista recolhido e desapercebido, por causa  da realidade tirana em que se vive. Acredito que seja essa a função deste filme: despertar o artista que vive em todos nós, nos fazendo entender que a arte está em todo lugar e em todas as pessoas. Pronta para consumir perdidamente, aqueles que ousam se entregar plenamente a sua poesia!

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