Memórias clichês que merecem ser
eternamente lembradas
Vera
Sílvia Magalhães
Vicente Leite
Memória... algo tão essencial pra mim que sou nostálgico inveterado,
um eterno saudosista, quase passadista, mas definitivamente não caio no engodo reacionário. Ao
invés disso prefiro conhecer e difundir histórias de personalidades
revolucionárias que ousaram e tentaram mudar velhas estruturas do passado! É
por essas e outras, que mesmo cheio de clichês esquerdistas, não tem como eu
não gostar do filme “A memória que me contam”, de Lúcia Murat, exibido no 45°
Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
O
ambiente de lembranças extremamente politizadas gira em torno da figura de Ana,
interpretada por Simone Spoladore. O espírito jovem militante e cheio de sonhos
da personagem ronda os outros personagens que possuem uma relação íntima e
afetuosa com ela. As discussões políticas que permeiam o filme podem ser vistas
como propaganda política partidária. Mas para mim não ficou esse peso, apesar
do tom de corporativista dos “companheiros” que se manifesta ao longo do filme.
Esta
questão política é discutida com a apresentação de dramas de consciência da
guerrilha: o peso das mortes, a tortura e a culpa, não por assassinatos, mas
por ainda esta vivo. O roteiro é basicamente estruturado em argumentações
politizadas que todos já conhecemos... todos os clichês e dilemas clássicos da esquerda estão presentes no filme. Eles são
reforçados por argumentos que se inclinam a defender ex-guerrilheiros, justificando
seus atos como políticos. Acho importante esse esclarecimento de que naquele período
tudo era muito diferente e medidas extremadas não eram aleatórias tinham um
cunho sociopolítico complexo.
No
entanto a maioria desta temática ditadura já foi tão trabalhada por vários
filmes brasileiros, inclusive da própria Lúcia que as discussões não tem frescor
e apesar de serem importantes soam tediosas às vezes. Ela tanta trazer um ar de
renovação com o elenco “nova geração do filme” eles meio que resgatam esse espírito
revolucionário engajando-se seja como artistas plásticos, como pesquisadores/intelectuais...
enfim não fica claro, mas percebe-se que eles valorizam a geração de sua pais
que lutou contra a ditadura e tentar ser atuantes como os novos tempos do
século XXI permitem. Inclusive o casal homossexual masculino, por exemplo,
transpõe bem isso: a luta deles é igualdade de direitos e algo mais... Isso é
mostrado com muita naturalidade, sem forçar a barra e apesar de ser mais um clichê gostei da abordagem. Cabe ressaltar a personagem homônima de Irene Ravache,
alterego de Lúcia, é uma mulher consumida pelo trabalho que serve como espécie de ponto apaziguador
e de equilíbrio nesse grupo de ex-militantes que é composto desde ministros da
República à italiano extraditado no Brasil, clara alusão a figura de Cesare Battisti.
Mas
de todas as memórias do filme a que mais me tocou foi o fato desse filme ser
uma homenagem a amizade de Lúcia e Vera Sílivia Magalhães. Eu conheci a
história de Vera Sílvia Magalhães através de um documentário da TV Câmara http://www.youtube.com/watch?v=q8fUe7vsj2s que no Piauí foi
exibido pelo canal da ALEPI. Desde aquele momento admirei a garra e os ideais
desta mulher. Saber que esse filme foi dedicado a ela vale encarar qualquer lugar
comum que possamos cair. Como a própria Vera disse nesse documentário o legado da sua geração foi a amizade, a solidariedade, a ética... e Lúcia consegue trazer
esses valores de tal forma que eu fico pensando mais na frente minha relação
com meus amigos passando por possíveis balanços emocionais e constatando que a
união e a amizade resiste cheia de amor diante de todas as dores e dificuldades.

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