Kátia: A simplicidade do exótico
Vicente Leite
Esta
noite no 45º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro foram exibidos 05
filmes: “A cidade”, de Liliana Sulzbach, RS; “Kátia”, de Karla Holanda, PI; “Mais
valia”, de Marco Túlio Ramos Vieira, MG; Vereda, de Diego Florentino, 20min, PR
e “A memória que me contam”, de Lucia Murat, RJ. Infelizmente não pude assistir
todos, apenas os dois primeiros. O primeiro, A cidade, muito agradável: boa fotografia,
boa trilha sonora, boa estória... enfim um filme bom, mas nem me ative a
detalhes. Estava tão ansioso para ver Kátia, que qualquer produção por mais
surpreendente que fosse seria ofuscada por ela, e neste caso “A cidade” não era
mesmo surpreendente, apesar de ser emocionante e tratar do isolamento de idosos com hanseníase em Itapuã, Rio Grande do Sul. Kátia também não é surpreendente, todos já a conheciam. No entanto é um filme com uma densidade
lírica intensa que tomou toda minha atenção.
Acima
de qualquer outra característica, uma que prevalece neste filme de Karla
Holanda é que ele é divertidíssimo e não porque a diretora obstinasse uma
comédia, e empastelasse a vida desta travesti, que foi a primeira travesti
eleita a um cargo político no Brasil. Inclusive uma das discussões de
corredores após o aclamado filme, é se os risos angariados eram “opressores” ou
simplesmente “inocentes”. Se alguém riu para debochar dela, este alguém riu por
conta, pois o filme foi conduzido de maneira tão honesta que não dava brechas para
que a figura desta grande personagem fosse subjugada. Eu ri diversas vezes ao
longo do filme, e não porque Kátia estivesse sendo ridicularizada, mas porque ela possui uma irreverência tão autêntica e regional que ficamos abobalhados de situações e
expressões aparentemente chocantes/impactantes que ela aborda com a maior
naturalidade.
Mas
além de risos este filme traz reflexões muito importantes que são apresentadas
de maneira bastante sutil sem ser piegas, ou ser didático. Uma delas é sobre o
sertão piauiense: a buraqueira na estrada, a secura, a labuta, a beleza do
sertão... Tudo com uma fotografia que a meu ver é muito dinâmica, numa paisagem
onde predomina certo tipo de imagem. Houve uma diversidade deliciosa que ia da
aridez à chuva, de feiras e açudes à parada gay e boate. Claro que a
multiplicidade da vida de Kátia ajudou neste trabalho, mas a sensibilidade de
perceber estes extremos e a maneira que foram se conduzindo realmente é
peculiar. A trilha sonora de Rita Ribeiro e Felipe Pinaud me encantou: sutil e intimista. Mas como não sou profissional e não entendo das técnicas só posso
afirmar que o mais interessante é que esse processo se deu da maneira mais
simples do mundo, sem apelo ao exotismo ou quaisquer exacerbações.
Espontaneidade
é algo que definitivamente permeia o filme inteiro. Mesmo quando Kátia tenta, explicitamente, direcionar a câmera e pessoas roteirizando “cenas” para que ela saia bem na
fita, mesmo quando ela faz uma auto propaganda usando o filme como trampolim político, ou quando intervém em
depoimentos para se favorecer... tudo se dá de uma maneira absurdamente natural
provocando o riso e uma certa admiração por esta travesti que tenta se
sobressair de maneira quase ingênua. O grande trunfo de Karla é que ela nos
leva para os universos de Kátia de uma maneira extremamente sutil, sem alardear
a “anormalidade” de uma travesti 03 vezes vereadora e vice-prefeita em pleno
sertão nordestino, no município de Colônia do Piauí.
Conhecemos
a família, o trabalho, a política, a espiritualidade, a propósito, as cenas que
retratam a espiritualidade dela para mim são as mais emocionantes. Neste
momento sentimos Kátia de peito aberto, com a alma desnuda, ainda que
queira fazer um charme para câmera, seus cantos de santo se sobressaem admiravelmente poéticos. Ao adentrar
no mundo multifacetado de Kátia esperava algo tenso, politizado, repleto de
problemas e superações. As dificuldades existem e são mostradas no filme, mas
não são o cerne da história. Por exemplo, na fala inicial Kátia conta que seu
pai lhe dizia: “O homem que vai ser viado tem que morrer!”. Ao contar isso não
existem grandes mágoas, sem conflitos psicológicos ou dramas existenciais. É
apenas a vida dela que grita em pleno semiárido piauiense, mas ela não faz
questão de se alardear por isso. Tem orgulho de sua história e de suas
conquistas, mas a simplicidade de seu cotidiano é maior. É uma vida
extraordinária que poderia ser retratada de um jeito dramático e comovente,
empunhando bandeiras e incitando piedades, mas é filme desinibido sem
pretensões óbvias e grandiosas que. Karla Holanda não cai no engodo de
idolatrar, analisar ou julgar a documentada. Com muita sabedoria e um quê de
bucolismo conseguiu captar toda singeleza da essência exótica e extremamente
simples de Kátia.

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