Trarte

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Kátia: A simplicidade do exótico



Vicente Leite

Esta noite no 45º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro foram exibidos 05 filmes: “A cidade”, de Liliana Sulzbach, RS; “Kátia”, de Karla Holanda, PI; “Mais valia”, de Marco Túlio Ramos Vieira, MG; Vereda, de Diego Florentino, 20min, PR e “A memória que me contam”, de Lucia Murat, RJ. Infelizmente não pude assistir todos, apenas os dois primeiros. O primeiro, A cidade, muito agradável: boa fotografia, boa trilha sonora, boa estória... enfim um filme bom, mas nem me ative a detalhes. Estava tão ansioso para ver Kátia, que qualquer produção por mais surpreendente que fosse seria ofuscada por ela, e neste caso “A cidade” não era mesmo surpreendente, apesar de ser emocionante e tratar do isolamento de idosos com hanseníase em Itapuã, Rio Grande do Sul. Kátia também não é surpreendente, todos já a conheciam. No entanto é um filme com uma densidade lírica intensa que tomou toda minha atenção.
Acima de qualquer outra característica, uma que prevalece neste filme de Karla Holanda é que ele é divertidíssimo e não porque a diretora obstinasse uma comédia, e empastelasse a vida desta travesti, que foi a primeira travesti eleita a um cargo político no Brasil. Inclusive uma das discussões de corredores após o aclamado filme, é se os risos angariados eram “opressores” ou simplesmente “inocentes”. Se alguém riu para debochar dela, este alguém riu por conta, pois o filme foi conduzido de maneira tão honesta que não dava brechas para que a figura desta grande personagem fosse subjugada. Eu ri diversas vezes ao longo do filme, e não porque Kátia estivesse sendo ridicularizada, mas porque ela possui uma irreverência tão autêntica e regional que ficamos abobalhados de situações e expressões aparentemente chocantes/impactantes que ela aborda com a maior naturalidade.
Mas além de risos este filme traz reflexões muito importantes que são apresentadas de maneira bastante sutil sem ser piegas, ou ser didático. Uma delas é sobre o sertão piauiense: a buraqueira na estrada, a secura, a labuta, a beleza do sertão... Tudo com uma fotografia que a meu ver é muito dinâmica, numa paisagem onde predomina certo tipo de imagem. Houve uma diversidade deliciosa que ia da aridez à chuva, de feiras e açudes à parada gay e boate. Claro que a multiplicidade da vida de Kátia ajudou neste trabalho, mas a sensibilidade de perceber estes extremos e a maneira que foram se conduzindo realmente é peculiar. A trilha sonora de Rita Ribeiro e Felipe Pinaud me encantou: sutil e intimista.  Mas como não sou profissional e não entendo das técnicas só posso afirmar que o mais interessante é que esse processo se deu da maneira mais simples do mundo, sem apelo ao exotismo ou quaisquer exacerbações.
Espontaneidade é algo que definitivamente permeia o filme inteiro. Mesmo quando Kátia tenta, explicitamente, direcionar a câmera e pessoas roteirizando “cenas” para que ela saia bem na fita, mesmo quando ela faz uma auto propaganda usando o filme como trampolim político, ou quando intervém em depoimentos para se favorecer... tudo se dá de uma maneira absurdamente natural provocando o riso e uma certa admiração por esta travesti que tenta se sobressair de maneira quase ingênua. O grande trunfo de Karla é que ela nos leva para os universos de Kátia de uma maneira extremamente sutil, sem alardear a “anormalidade” de uma travesti 03 vezes vereadora e vice-prefeita em pleno sertão nordestino, no município de Colônia do Piauí. 
Conhecemos a família, o trabalho, a política, a espiritualidade, a propósito, as cenas que retratam a espiritualidade dela para mim são as mais emocionantes. Neste momento sentimos Kátia de peito aberto, com a alma desnuda, ainda que queira fazer um charme para câmera, seus cantos de santo se sobressaem admiravelmente poéticos. Ao adentrar no mundo multifacetado de Kátia esperava algo tenso, politizado, repleto de problemas e superações. As dificuldades existem e são mostradas no filme, mas não são o cerne da história. Por exemplo, na fala inicial Kátia conta que seu pai lhe dizia: “O homem que vai ser viado tem que morrer!”. Ao contar isso não existem grandes mágoas, sem conflitos psicológicos ou dramas existenciais. É apenas a vida dela que grita em pleno semiárido piauiense, mas ela não faz questão de se alardear por isso. Tem orgulho de sua história e de suas conquistas, mas a simplicidade de seu cotidiano é maior. É uma vida extraordinária que poderia ser retratada de um jeito dramático e comovente, empunhando bandeiras e incitando piedades, mas é filme desinibido sem pretensões óbvias e grandiosas que. Karla Holanda não cai no engodo de idolatrar, analisar ou julgar a documentada. Com muita sabedoria e um quê de bucolismo conseguiu captar toda singeleza da essência exótica e extremamente simples de Kátia.

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