TODAS
AS LUZES PARA GUAYASAMÍN
“Deixem sempre uma luz
acesa. Eu retornarei”(Guayasamím)
Na entrada do
Museu da República depara-se com os croquis do pintor equatoriano Oswaldo Guayasamín.
Já desponta aí uma profunda emoção e, sobretudo pra mim um sentimento terno
auto-identificação com seus rabiscos magistrais. A tinta sobre cartolina,
alguns traços sujos, outros impecáveis, de tinta, de lápis, de aquarela e etc.
Enfim materiais e papéis relativamente simples ganham uma exuberância incrível
nos traços de Guyasamín.
Depois
percorrer as telas. E que primor de telas. As primeiras possuem um ar realista
moderno com um quê expressionista. As texturas despertam uma vontade louca de
tocar nas telas. Entretanto é importante preservar o trabalho desse mestre e
mantenho todo meu contentamento apenas diante de meus olhos. Algumas destas
telas inclusive, me lembram o modernismo brasileiro nas figuras de Di
Cavalcanti e Portinari como pode-se notar nas telas “A colheita” - 1939;
“Trabalhadores” e “Greve Hoje” de 1942. A beleza e a temática já revelam a
importância político-social deste artista.
Se
as personagens nas telas impressionam, as paisagens não deixam a desejar. As
telas sobre Quito são encantadoras e revelam as facetas de olhar sensível e
apurado capaz de captar as visões mais deslumbrantes da sua cidade natal,
Quito. A beleza dessa percepção é explícita nos óleos sobre tela “Quito Verde” de
1942, “Quito Negro” de 1969, “Quito Azul” de 1970.
Finalmente
alcanço as memoráveis e talvez mais famosas obras de Guayasamín: os clássicos
olhos, mãos e bocas desfigurados de caráter cubista/surrealista que parecem
carregar consigo a maior dor do mundo. Observando a tríade “MÃE I, II e III”,
as três de 1969, podemos compreender o significado de uma das belas frases que
percorrem a exposição: “Minha pintura é para ferir, para arranhar e golpear o
coração das pessoas,para mostrar que o homem faz contra o homem.” Este
significado é reforçado por telas mais politizadas e tão chocantes como
“Pinochet” de 1976 e “Homenagem aos mártires” de 1963-1965.
Todas
as vertentes e estilos de Guayasamím podiam ser percebidos nesta exposição. Das
telas mais sombrias e trágicas as litografias e serigrafias alegres coloridas.
As esculturas de argila, cerâmica, madeira e bronze. Das obras de arte sacra e
no centro, onde se exibia vídeos sobre o artista e brilhava a “chama eterna
pela paz e os Direitos Humanos.”
O
mais interessante desta rápida e singela visita vespertina, além das obras é
claro, era o fato de frequentemente estar cercado por um grupo de crianças
acompanhados de suas respectivas professoras. No meio de obras tão intensas e
pinceladas dramáticas eis que me deparo com a ingenuidade e dispersão natural
das crianças, que após o passeio se dirigiam a um espaço reservado onde podiam
desenhar e literalmente fazer arte. Olhando os pequeninos senti que, como
Guyasamím queria, uma luz poderia se manter acesa para que ele voltasse.
Vicente Leite
Vicente Leite

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