Trarte

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

TODAS AS LUZES PARA GUAYASAMÍN



TODAS AS LUZES PARA GUAYASAMÍN
“Deixem sempre uma luz acesa. Eu retornarei”(Guayasamím)
Menina  Chorando, óleo/tela

            Na entrada do Museu da República depara-se com os croquis do pintor equatoriano Oswaldo Guayasamín. Já desponta aí uma profunda emoção e, sobretudo pra mim um sentimento terno auto-identificação com seus rabiscos magistrais. A tinta sobre cartolina, alguns traços sujos, outros impecáveis, de tinta, de lápis, de aquarela e etc. Enfim materiais e papéis relativamente simples ganham uma exuberância incrível nos traços de Guyasamín.
Depois percorrer as telas. E que primor de telas. As primeiras possuem um ar realista moderno com um quê expressionista. As texturas despertam uma vontade louca de tocar nas telas. Entretanto é importante preservar o trabalho desse mestre e mantenho todo meu contentamento apenas diante de meus olhos. Algumas destas telas inclusive, me lembram o modernismo brasileiro nas figuras de Di Cavalcanti e Portinari como pode-se notar nas telas “A colheita” - 1939; “Trabalhadores” e “Greve Hoje” de 1942. A beleza e a temática já revelam a importância político-social deste artista.
Se as personagens nas telas impressionam, as paisagens não deixam a desejar. As telas sobre Quito são encantadoras e revelam as facetas de olhar sensível e apurado capaz de captar as visões mais deslumbrantes da sua cidade natal, Quito. A beleza dessa percepção é explícita nos óleos sobre tela “Quito Verde” de 1942, “Quito Negro” de 1969, “Quito Azul” de 1970.
Finalmente alcanço as memoráveis e talvez mais famosas obras de Guayasamín: os clássicos olhos, mãos e bocas desfigurados de caráter cubista/surrealista que parecem carregar consigo a maior dor do mundo. Observando a tríade “MÃE I, II e III”, as três de 1969, podemos compreender o significado de uma das belas frases que percorrem a exposição: “Minha pintura é para ferir, para arranhar e golpear o coração das pessoas,para mostrar  que o homem faz contra o homem.” Este significado é reforçado por telas mais politizadas e tão chocantes como “Pinochet” de 1976 e “Homenagem aos mártires” de 1963-1965.
Todas as vertentes e estilos de Guayasamím podiam ser percebidos nesta exposição. Das telas mais sombrias e trágicas as litografias e serigrafias alegres coloridas. As esculturas de argila, cerâmica, madeira e bronze. Das obras de arte sacra e no centro, onde se exibia vídeos sobre o artista e brilhava a “chama eterna pela paz e os Direitos Humanos.”
O mais interessante desta rápida e singela visita vespertina, além das obras é claro, era o fato de frequentemente estar cercado por um grupo de crianças acompanhados de suas respectivas professoras. No meio de obras tão intensas e pinceladas dramáticas eis que me deparo com a ingenuidade e dispersão natural das crianças, que após o passeio se dirigiam a um espaço reservado onde podiam desenhar e literalmente fazer arte. Olhando os pequeninos senti que, como Guyasamím queria, uma luz poderia se manter acesa para que ele voltasse.

                                                                             Vicente Leite

Nenhum comentário:

Postar um comentário