Trarte

domingo, 23 de setembro de 2012


Toda nudez de Ney é recompensadora em Olho Nu!


Vicente Paula

Vivo comentando que Ney Matogrosso é o melhor cantor/intérprete que temos. Pois ele conegue ter a afinação de Elis Regina e o estilo performático de Maria Bethânia num corpo másculo, magérrimo e divinamente endiabrado. Sua personalidade sempre me inspirou os instintos mais selvagens e poéticos. Esses instintos afloraram mais ainda depois de assistir o documentário longa-metragem sobre sua trajetória, Olho Nu, de Joel Pizzini em parceria com Paloma Rocha e o Canal Brasil que faz parte da Mostra Competitiva do 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e foi exibido nesta noite de sábado.
A lógica tradicional e linear não existe aqui. As histórias apesar de serem contadas aleatoriamente, pelo próprio Ney, estão coerentemente interligadas.  Esporadicamente vemos depoimentos da mãe, de algum artista, como Cazuza ou outra pessoa ligada a sua intimidade. O interessante é que a maioria das falas do “Ney de hoje” são em off. Ao narrar algum episódio aparece uma imagem sua antiga, um clipe, lugar...  Lembro de raros momentos em que o Ney atual está de frente pra câmara falando de si, a maioria são imagens de entrevistas suas em TVs, muitos videoclipes, imagens de acervo pessoal... Enfim um festival de preciosidades da sua vida e carreira, que vai desde antes de Secos e Molhados, passando pela sua vida no mato, no mar, na selva de pedra... até seus profícuos dias atuais.
Ele fala e canta de tudo neste filme. Conta-nos sobre sua infância, adolescência, carreira, dinheiro, androginia, sexo, drogas, Brasília, Rio, São Paulo, a natureza, a espiritualidade... Tudo isso com as frases mais criativas, ousadas e divertidas que só mesmo Ney poderia dizer. Uma delas: “Eu uso e abuso de todos os lados!” Outra hilária é quando ele vai se confessar na sua 1ª comunhão e o padre que pergunta se ele já havia feito saliências com meninos ou com meninas. Ele prontamente responde que não com nenhum dos dois, mas depois fica pensando que se o padre havia mencionado meninos, então é porque se faz saliências com meninos. Essas e mais um monte compõe as peculiares histórias de Ney. A musicalidade dele também é diversa: do rock aos cantores do rádio, ele passeia pela versatilidade da nossa música, variando não só os estilos musicais, mas também suas apresentações ao público.
Assistir Olho Nu é uma surpresa a todo minuto. Não sabemos se ele vai vir emplumado, purpurinado, com maquiagem carregada, ou se vem charmosamente bandoleiro, ou malandramente formal... ou simplesmente nu. Ney é o que quer ser sem se preocupar com julgamentos e explicações. Nem o seu fiel público escapa do imperativo da sua vontade. Quando todos babamos e acreditamos cegamente em cada palavra cantada,  ele vem com: “ Vocês pensam que eu acredito em tudo que eu canto?! Não acredito não!” Se referindo especificamente a música Medo de Amar, de Vinícius de Moraes http://www.youtube.com/watch?v=d3UZsxzdgCI  No trecho “E compreender que o ciúme é o perfume do amor” ele nos revela que pensa que o ciúme é o inferno do amor. O prazer dele, para nosso deleite, é subverter! E toda a ousadia deste homem que tem a audácia de rebolar é inspiradora. Dá uma vontade de fazer todas as revoluções do mundo. De ser Dzi Croquettes, Pagú, de ser Ney... Oh Meu Deus e agora?! Lembrei que sou gordo! Não tem problema! A coragem emanada de Ney transcende todos os limites! Besos!

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