Trarte

terça-feira, 25 de setembro de 2012


O amor pela arte que consome a todos nós


Vicente de Paula

Esta noite não tive que pedir licença as árvores para tolhê-las de suas flores. Os jasmineiros do CCBB - Brasília (Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília) estavam tão floridos que havia várias flores lindas espalhadas no gramado. O CCBB é um lugar incrível! Adoro ir lá, principalmente agora que os cinéfilos e críticos do 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro reclamam da acústica do Teatro Nacional, preferindo as exibições que são reprisadas gratuitamente na sala de cinema do CCBB. Eu não sou profissional e para mim as diferenças não são nítidas.
De qualquer modo prefiro o CCBB. É um prazer enorme percorrer aqueles jardins sentindo o perfume dos jasmins, a brisa fria e a beleza das flores em suas plantas originais iluminadas na penumbra noturna e por luzes artificiais. De certa forma é essa sensação de assistir “Esse amor que nos consome”, de Allan Ribeiro, vencedor do prêmio de melhor montagem. É como ver a beleza da vida no escurinho de uma sala, iluminada pela luz refletida na tela.
O filme tem o clima muito forte de documentário, os personagens são reais, talvez a história seja de ficção, sendo por isso classificada como longa de ficção. No entanto, a realidade está a flor da pele no cotidiano de um casal de artistas, bailarinos de idade avançada.  Mas esse detalhe é quase irrelevante, já que eles tem uma vitalidade vigorosa na empreitada de produzir um espetáculo e se manter no casarão, onde realizam suas atividades e que está a venda.
Mais uma vez a autoidentificação foi imediata. Aliás um filme, uma peça, uma tela, uma escultura... uma obra de arte marca uma pessoa quando existe um sentimento identitário, quando ela consegue mexer com as memórias e vivências pessoais de alguém seja por qual motivo for. Quando a gente se vê na obra de alguma maneira, significa que a arte está cumprindo uma das suas funções primordiais: cativar/envolver o público. Este filme, especificamente, me atingiu em cheio, porque aborda o universo de uma companhia de dança. Eu já fiz um ano de teatro e sou um apreciador nato. Teatro está intimamente ligado ao mundo da dança: ambos trabalham a linguagem corporal! No entanto nunca consegui disciplinar meu corpo de uma maneira que se conectasse absolutamente ao pensamento. Até minha mente tumultuada eu consegui dominar na medida do possível, mas meu corpo é uma ferramenta que não tenho total controle, não a ponto de unificá-lo com a mente.
É essa temática que é abordada no filme. Tomando por mote e por fundo o casarão que está à venda, é o lugar onde toda a arte acontece. A partir disso narra-se o cotidiano, o trabalho, os sentimentos, as pequenas discussões, os ensaios, a monotonia... em fim toda a vida destes aristas que gira em torno da montagem do espetáculo “Esse amor que nos consome”. Durante a construção desse espetáculo, vemos cenas belíssimas das ideias, dos ensaios, figurinos, músicas... é tudo sensivelmente belo. As várias cenas que remetiam a espiritualidade na vida artística deles me despertou mais uma vez profunda identificação. Rubens, um negro com tudo em cima e vaidoso, é filho de Iansã, embora todos achem que ele seja de Oxum, por causa da vaidade. Todo instante ele reintera que virou no santo e é filho de Iansã e Oxumaré. A casa onde vivem e trabalham é frequentemente visitada por compradores. No entanto, um Exu grande e viril, que só nós vemos, acompanha tudo guardando a arte naquele lar. É uma abordagem muito bonita que traz os encantos e riquezas das “religiões afro-brasileiras”.  
Um filme sem dúvidas poético, que vai muito mais além do retrato do dia-a-dia anacrônico desses artistas. Um olhar que vai fundo e consegue captar a beleza da arte nas pessoas enjeitadas, na casa, no dia, na noite, no mar, nas ruas, na cidade... Em tudo se consegue impingir a presença marcante da arte. É um filme que atinge principalmente “artistas profissionais”, mas não abarca somente os de fato e de direito, mas também aqueles que no fundo da alma são artistas. Os amadores, e/ou quaisquer seres humanos que guardam em seu interior um artista recolhido e desapercebido, por causa  da realidade tirana em que se vive. Acredito que seja essa a função deste filme: despertar o artista que vive em todos nós, nos fazendo entender que a arte está em todo lugar e em todas as pessoas. Pronta para consumir perdidamente, aqueles que ousam se entregar plenamente a sua poesia!

domingo, 23 de setembro de 2012


Desnudando Vestido de Laerte e a emancipação da sensibilidade

                                                     
                                           Vicente de Paula – referência subliminar e subversiva à androginia

Quisera eu ter tempo para acompanhar todas as palestras e filmes que compõe o 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Questões logístico-temporais me impedem de estar em vários lugares fazendo várias coisas ao mesmo tempo. E a preguiça me impede de acordar ou de me manter até o fim de alguns eventos. No entanto, não deixo de dialogar a respeito daqueles que me puxam as ideias. Vestido de Laerte, de Claudia Priscilla e Pedro Marques, é um desses e faz parte da mostra competitiva do Festival.
  É um curta-metragem de ficção, aliás porque não realidade?! Já que é um recorte, praticamente biográfico, de um momento da vida do cartunista Laerte que há pouco decidiu assumir sua “identidade feminina” questionando relações de gênero e sexo que são dogmaticamente engessadas há séculos. Só de por a prova certos tabus, que de certos não tem nada, já é um filme que puxa mesmo as ideias da gente. Além disso, tem doce interpretação de Laerte, interpretando ele mesmo. Isso é outro ponto a favor. Sempre simpatizei com a figura de Laerte, afinal eu me considero um ilustrador, e essa é uma das facetas de Laerte que sempre me despertou afinidade. Depois que ele botou uma saia, um batonzinho e subiu nas tamancas... minha admiração extravasou totalmente.e não pelo travestismo adotado, mas pela coragem de discutir algo muito mais amplo que envolve uma série de segmentos da sociedade que são oprimidos.
Com muito bom humor o filme traz esta discussão as telas, com metáforas sutis e pitorescas. Uma das cenas que acho bastante engraçada e inteligente é a comparação que Laerte faz dos suntuosos vestidos de primeira comunhão que as meninas das meninas, que continha até asas, com o terninho preto e básico dos meninos. Uma coisa tão simples dessas é carregada de análises. Uma delas é porque as coisas de meninas são repletas de detalhes? Por que nas lojas ditas unsex o departamento feminino é imensamente maior que o masculino que está as traças?! Porque a moda parece está voltada só para elas?! Porque elas usam vestidos, saias, calças e um guarda-roupa repleto de assessórios e peças diferenciadas, enquanto os homens que se contentem com o basicão jeans&camiseta?!
Bom, até agora só falamos de questões ligadas ao mercado e consumo, porque lamentavelmente é o que se tem mais visibilidade em tempos capitais como o nosso. Mas obviamente que isso se estende as searas do comportamento, sentimento, sociedade e etc. Os papéis destinados a homens e mulheres estão bem definidos. E ai de quem ousar desafiá-los. Aí retoma-se os porquês. Por que esta necessidade tirana de diferençar homens e mulheres?! A resposta é complexa, mas basicamente envolve o fetiche obsoleto de dominar as mulheres, sob a justificativa principal de garantir os genes do macho em sua prole. Se essa explicação era estúpida há muitos anos atrás, que dirá no século XXI, com o advento dos exames de DNA, pílula e etc. As mulheres aos poucos se libertam disso, e vão subvertendo essa ficção ditatorial. Avançaram muito, e hoje suas conquistas superam muito o simples direito de usar calças. Enquanto os homens estão atrasadíssimos na emancipação por sensibilidade, delicadezas, afeto, paternidade... E saias!
Num mundo tão diverso, “certos” critérios e classificações são extremamente obsoletos. Só na categoria homossexual existe uma série de possibilidades. Na categoria heterossexual temos até crossdessers... É uma multiplicidade de manifestações do ser que é uma completa idiotice essa mania de categorizar tudo. Tentar classificar como instrumento de orientação ou mesmo de pesquisa é até válido, mas na maioria das vezes ineficazes. O grande problema é que não se classifica para ajudar as pessoas, mas para impor a elas uma série de normas sufocantes, que não tem funcionalidade no convívio social. O único interesse, cretino, em “denominar” comportamentos é para que uma das “denominações”, dita correta, prevaleça e suplante as outras.
O filme sobre Laerte é emocionante e divertido e traz muito mais do que meras questões escatológicas. E transcende ao direito que ele na sua condição de ser humano do gênero feminino de usar o toillet feminino. Nada mais justo não?! Não sei, as mulheres podem se sentirem desconfortáveis ao dividir este espaço íntimo com alguém que tenha um pênis no meio das pernas. E se não for o Laerte, mas um hétero tarado fingindo feminilidade?! Francamente não sei! O que eu sei é que essa discussão tem que ser feita abertamente, de peito aberto. E se as mulheres quiserem tirar a blusa e sutiã pra ficarem mais a vontade?! Discutiremos também, porque o que interessa é igualdade e o bem estar e ser de toda sociedade! 

Toda nudez de Ney é recompensadora em Olho Nu!


Vicente Paula

Vivo comentando que Ney Matogrosso é o melhor cantor/intérprete que temos. Pois ele conegue ter a afinação de Elis Regina e o estilo performático de Maria Bethânia num corpo másculo, magérrimo e divinamente endiabrado. Sua personalidade sempre me inspirou os instintos mais selvagens e poéticos. Esses instintos afloraram mais ainda depois de assistir o documentário longa-metragem sobre sua trajetória, Olho Nu, de Joel Pizzini em parceria com Paloma Rocha e o Canal Brasil que faz parte da Mostra Competitiva do 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e foi exibido nesta noite de sábado.
A lógica tradicional e linear não existe aqui. As histórias apesar de serem contadas aleatoriamente, pelo próprio Ney, estão coerentemente interligadas.  Esporadicamente vemos depoimentos da mãe, de algum artista, como Cazuza ou outra pessoa ligada a sua intimidade. O interessante é que a maioria das falas do “Ney de hoje” são em off. Ao narrar algum episódio aparece uma imagem sua antiga, um clipe, lugar...  Lembro de raros momentos em que o Ney atual está de frente pra câmara falando de si, a maioria são imagens de entrevistas suas em TVs, muitos videoclipes, imagens de acervo pessoal... Enfim um festival de preciosidades da sua vida e carreira, que vai desde antes de Secos e Molhados, passando pela sua vida no mato, no mar, na selva de pedra... até seus profícuos dias atuais.
Ele fala e canta de tudo neste filme. Conta-nos sobre sua infância, adolescência, carreira, dinheiro, androginia, sexo, drogas, Brasília, Rio, São Paulo, a natureza, a espiritualidade... Tudo isso com as frases mais criativas, ousadas e divertidas que só mesmo Ney poderia dizer. Uma delas: “Eu uso e abuso de todos os lados!” Outra hilária é quando ele vai se confessar na sua 1ª comunhão e o padre que pergunta se ele já havia feito saliências com meninos ou com meninas. Ele prontamente responde que não com nenhum dos dois, mas depois fica pensando que se o padre havia mencionado meninos, então é porque se faz saliências com meninos. Essas e mais um monte compõe as peculiares histórias de Ney. A musicalidade dele também é diversa: do rock aos cantores do rádio, ele passeia pela versatilidade da nossa música, variando não só os estilos musicais, mas também suas apresentações ao público.
Assistir Olho Nu é uma surpresa a todo minuto. Não sabemos se ele vai vir emplumado, purpurinado, com maquiagem carregada, ou se vem charmosamente bandoleiro, ou malandramente formal... ou simplesmente nu. Ney é o que quer ser sem se preocupar com julgamentos e explicações. Nem o seu fiel público escapa do imperativo da sua vontade. Quando todos babamos e acreditamos cegamente em cada palavra cantada,  ele vem com: “ Vocês pensam que eu acredito em tudo que eu canto?! Não acredito não!” Se referindo especificamente a música Medo de Amar, de Vinícius de Moraes http://www.youtube.com/watch?v=d3UZsxzdgCI  No trecho “E compreender que o ciúme é o perfume do amor” ele nos revela que pensa que o ciúme é o inferno do amor. O prazer dele, para nosso deleite, é subverter! E toda a ousadia deste homem que tem a audácia de rebolar é inspiradora. Dá uma vontade de fazer todas as revoluções do mundo. De ser Dzi Croquettes, Pagú, de ser Ney... Oh Meu Deus e agora?! Lembrei que sou gordo! Não tem problema! A coragem emanada de Ney transcende todos os limites! Besos!

Especulação traz muita revolta, mas esperanças também!


Vicente de Paula

Mais do que tocar esse filme penetrou não só em mim, mas de todo o público que aplaudiu de pé por alguns minutos o curta-metragem “A ditadura da especulação” dirigido por Zé Furtado e produzido pelo Centro de Mídia Independente do Distrito Federal – CMI/DF e  Coletivo Muruá, exibido na mostra competitiva do 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
O filme, nos créditos iniciais, deixou claro que esta produção não teve nem um patrocínio e esclareceu também que a equipe apoiou os hackers que invadiram o site da secretaria de cultura do GDF, como também defende a pirataria e a livre distribuição da cultura sem amarras mercadológicas. Desde já percebemos que o filme não é uma grande produção tradicional preocupada com estética (fotografia, som, montagem, edição e outros detalhes técnicos).
Carregadas de subversão, as imagens tem sabor jornalístico ácido, e são quase amadoras, devido à dificuldade de gravar, pois os cinegrafistas eram frequentemente agredidos e impedidos de documentar a tanta barbárie. Mesmo arriscadamente conseguiram captar as manifestações de estudantes e índios contra a construção do bairro Noroeste em terras indígenas: “Santuário do Pajé.” A brutalidade com que seguranças e polícia atacam estes jovens e índios, “armados” apenas com pedaços de paus e eventualmente arcos é absurda. As cenas são épicas: Uma multidão de policiais militares para agir implacavelmente contra cerca de 40 jovens, dos quais alguns se atiravam na frente de escavadoras e recebiam muita porrada e spray de pimenta. Isso tudo estimulou uma revolta na plateia que fez com que o filme fosse aclamadíssimo antes durante e depois de sua exibição.
Para mim a emoção ultrapassou os limites da indignação. Sobretudo porque estas questões são frequentemente discutidas nos encontro de Comunicação Social que participo: os ENECOMs e afins por aí a fora. Então a identificação foi imediata. Nas manifestações que participo nunca tive a má sorte de apanhar da polícia, ou levar spray de pimenta direto nos olhos. Mas vários são os amigos espancados e até presos em mobilizações deste tipo. Então eu via meus amigos ali, eu me via ali, pois certamente se fôssemos candangos, também estaríamos defendendo aquela gente e aquela mata. Quando em dado momento do filme os estudantes cantaram “Pisa Ligeiro! Pisa Ligeiro! Quem não pode com a formiga não assanha o formigueiro.” Lembrei na hora de quantas e quantas vezes já não cantamos isto?! Realmente o filme-denúncia que vale apena ser visto e que desperta na gente uma vontade de lutar cada vez mais por justiça social! Quando o filme acabou e percebi que todos, to-dos e não só os bons e velhos de guerra estudantes aplaudiam e gritavam por minutos “Santuário não se move! Santuário não se move!” Neste momento cresceu em mim uma esperança em meus sonhos e na humanidade.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012


Memórias clichês que merecem ser eternamente lembradas


Vera Sílvia Magalhães

Vicente Leite

Memória... algo tão essencial pra mim que sou nostálgico inveterado, um eterno saudosista, quase passadista, mas definitivamente não caio no engodo reacionário. Ao invés disso prefiro conhecer e difundir histórias de personalidades revolucionárias que ousaram e tentaram mudar velhas estruturas do passado! É por essas e outras, que mesmo cheio de clichês esquerdistas, não tem como eu não gostar do filme “A memória que me contam”, de Lúcia Murat, exibido no 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
O ambiente de lembranças extremamente politizadas gira em torno da figura de Ana, interpretada por Simone Spoladore. O espírito jovem militante e cheio de sonhos da personagem ronda os outros personagens que possuem uma relação íntima e afetuosa com ela. As discussões políticas que permeiam o filme podem ser vistas como propaganda política partidária. Mas para mim não ficou esse peso, apesar do tom de corporativista dos “companheiros” que se manifesta ao longo do filme.
Esta questão política é discutida com a apresentação de dramas de consciência da guerrilha: o peso das mortes, a tortura e a culpa, não por assassinatos, mas por ainda esta vivo. O roteiro é basicamente estruturado em argumentações politizadas que todos já conhecemos... todos os clichês e dilemas clássicos  da esquerda estão presentes no filme. Eles são reforçados por argumentos que se inclinam a defender ex-guerrilheiros, justificando seus atos como políticos. Acho importante esse esclarecimento de que naquele período tudo era muito diferente e medidas extremadas não eram aleatórias tinham um cunho sociopolítico complexo.
No entanto a maioria desta temática ditadura já foi tão trabalhada por vários filmes brasileiros, inclusive da própria Lúcia que as discussões não tem frescor e apesar de serem importantes soam tediosas às vezes. Ela tanta trazer um ar de renovação com o elenco “nova geração do filme” eles meio que resgatam esse espírito revolucionário engajando-se seja como artistas plásticos, como pesquisadores/intelectuais... enfim não fica claro, mas percebe-se que eles valorizam a geração de sua pais que lutou contra a ditadura e tentar ser atuantes como os novos tempos do século XXI permitem. Inclusive o casal homossexual masculino, por exemplo, transpõe bem isso: a luta deles é igualdade de direitos e algo mais... Isso é mostrado com muita naturalidade, sem forçar a barra e apesar de ser mais um clichê gostei da abordagem. Cabe ressaltar a personagem homônima de Irene Ravache, alterego de Lúcia, é uma mulher consumida pelo trabalho que serve como espécie de ponto apaziguador e de equilíbrio nesse grupo de ex-militantes que é composto desde ministros da República à italiano extraditado no Brasil, clara alusão a figura de Cesare Battisti.
Mas de todas as memórias do filme a que mais me tocou foi o fato desse filme ser uma homenagem a amizade de Lúcia e Vera Sílivia Magalhães. Eu conheci a história de Vera Sílvia Magalhães através de um documentário da TV Câmara http://www.youtube.com/watch?v=q8fUe7vsj2s que no Piauí foi exibido pelo canal da ALEPI. Desde aquele momento admirei a garra e os ideais desta mulher. Saber que esse filme foi dedicado a ela vale encarar qualquer lugar comum que possamos cair. Como a própria Vera disse nesse documentário o legado da sua geração foi a amizade, a solidariedade, a ética... e Lúcia consegue trazer esses valores de tal forma que eu fico pensando mais na frente minha relação com meus amigos passando por possíveis balanços emocionais e constatando que a união e a amizade resiste cheia de amor diante de todas as dores e dificuldades.

Paulo Emílio, Pagu e nossa identidade cinematográfica

Paulo Emílio Salles Gomes e Patrícia Galvão


Vicente de Paula

Sempre gostei de cinema, mas nunca fui cinéfilo. E isso não é papo de viciado que não consegue admitir o vício, nunca fui cinéfilo por falta de conhecimento profundo a respeito de cinema Acredito que a cinefilia está ou pelo menos não deveria está relacionada não só ao consumo inexorável de filmes, mas a análise e estudos sobre cinema. De certa forma é isso que Paulo Emílio Salles Gomes inspira.
A primeira vez que ouvi falar em Paulo Emílio foi numa matéria na revista Piauí de 2007. http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-6/ficcao/cemiterioO que me chamou atenção na reportagem foi mencionarem que Paulo Emílio nutria uma paixão por Pagú, Patrícia Galvão. A autoidentificação foi imediata. Sou um eterno apaixonado pela vida e obra desta fascinante mulher! Pesquisei um pouco mais sobre Paulo Emílio, constatei que era discípulo de Oswald de Andrade e talvez daí venha sua admiração por Pagu. Descobri também  que foi casado com Lygia Fagundes Telles era crítico de cinema, mas não me aprofundei muito não sei o porquê.
Felizmente agora tive a oportunidade de retomar este processo. Ontem, 5ª feira, ocorreu no Kubitshek Plaza Hotel um seminário sobre Paulo Emílio e a crítica cinematográfica com tema: “Atividade ainda cíclica? e Ensaio Cinema Brasileiro – Uma trajetória no subdesenvolvimento” A moderadora da mesa era Ivonete Pinto. Os palestrantes Ismail Xavier e Alfredo Manevy. Meu pequeno atraso me impediu de ouvir toda a fala de Manevy, mas dentre as suas observações uma que destaco é sobre nosso subdesenvolvimento cultural, que foi um dos temas preponderantes. Alfredo nos fala que para Paulo Emílio um sistema desenvolvido deve possuir pontos de irradiação independentes entre si. No cinema não poderia ser diferente. Paulo Emílio defendia uma rede cinematográfica que fosse descentralizada e espalhada por todo país.
         Ismail Xavier foi quem destrinchou mesmo a Trajetória do Subdesenvolvimento, claro que não totalmente, até porque o tempo não permitiria. Ele nos traz Paulo Emílio como um delineador de processos, que define análises e conjuntura de filmes. E cutuca com citações da obra, reiterando que a nossa situação colonial de subdesenvolvimento está presente em tudo, nossos hábitos, cultura e inclusive no cinema. Daí vem a proposta de Paulo Emílio querer romper com isso através da ideia de nação, buscando assim uma identidade nacional para nosso cinema. Ismail comenta que na literatura isso é mais nítido, segundo ele literatura e jornalismo... as letras de um modo geral tem uma função simbólica pra formular esta ideia de nação conforme as ideias de Habermas. Ele nos fala que para Antonio Candido a literatura brasileira conseguiu encontrar esta identidade nacional, ainda que com uma série de deficiências é nossa e “se nós não a amássemos, quem o faria?!” No cinema esta identidade não foi construída. É basicamente neste ponto que gira o trabalho de Paulo Emílio.
Para ele são diversos os fatores para a essa construção desta identidade. Um destes é a relação “ocupante e ocupado” no cinema. O nosso cinema não conseguiu sair da esfera de dominação do ocupante, basicamente classe média alta. Ismail destacou esse como um dos maiores impeditivos para ainda não termos constituído ainda uma identidade nacional no cinema. Para elaborar isso seria fundamental preciso estabelecer uma relação de diálogo com o público. Não basta os filmes brasileiros terem boa vitrine em importantes festivais. Se não existir um público assíduo que sustente a indústria cinematográfica no Brasil, toda essa glória é inútil e continuaremos numa deriva identitária.
Parece cruel e capitalista. Mas é uma realidade! De que adianta uma imensa produção cinematográfica se o público não vai ter acesso?! É preciso criar instrumentos e políticas para que o público se torne consumidor capaz de sustentar um mercado forte e com identidade própria. O viés econômico é um dos passos. Evidentemente que uma plateia passivamente consumista não é nada interessante para nossa identidade. É preciso disseminar também a qualidade e o senso crítico nas produções e no público. Acredito que Paulo Emílio pretendia um cinema capaz de cumprir sua função social crítica aliado a um público de ocupantes e ocupados que visse e refletisse cinema. Ele reconhece a revolução do cinema novo como algo que chegou mais perto de refletir nossa identidade. Mas não alvejou o grande público e não porque fosse intelectualizado, mas porque nossa estrutura de subdesenvolvimento está impregnada de tal forma que um povo com educação tão precária jamais atentaria para algo como cinema novo. Além disso, a o processo de autoria era mais importante que o de mercadoria e prevaleceu o dilema ocupante e ocupado O cinema novo foi produzido por ocupantes para ocupados, que subjugados não conseguiram nem participar nem absorver o cinema novo.  
Identidades a parte, ainda não conheço muito do pensamento de Paulo Emílio sobre cinema, mas estes seminários estão sendo esclarecedores para conhecer sua personalidade e entender um pouco dos rumos do cinema nacional e a possível consolidação de uma identidade. O que é certo para mim é que as contribuições de figuras com Paulo Emílio e Pagu se fazem urgentes na cultura brasileira. Reconhecer suas obra e vidas é importante, não para reproduzi-los e imitá-los. Pois isso incide no risco de nos transformarmos em reacionários, desapercebendo nossa própria realidade. Devemos aprender a militância cultural deles buscando uma cultura autêntica, com qualidade diversa, crítica e democrática! De antemão, respondo que sim ao questionamento do título do seminário que vou participar nesta tarde: “Seminário Paulo Emílio e a crítica cinematográfica – Presença de Paulo Emílio no pensamento cinematográfico brasileiro: Ela ainda existe?” Sim! E talvez o pequeno incêndio no 3° andar ontem seja uma fênix reavivando este pensamento que ainda resiste e deve se expandir! Assim como a presença de Pagu e outros artistas atemporais que sempre inspirarão identidades pessoais e sobretudo nossa identidade artístico-cultural.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Kátia: A simplicidade do exótico



Vicente Leite

Esta noite no 45º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro foram exibidos 05 filmes: “A cidade”, de Liliana Sulzbach, RS; “Kátia”, de Karla Holanda, PI; “Mais valia”, de Marco Túlio Ramos Vieira, MG; Vereda, de Diego Florentino, 20min, PR e “A memória que me contam”, de Lucia Murat, RJ. Infelizmente não pude assistir todos, apenas os dois primeiros. O primeiro, A cidade, muito agradável: boa fotografia, boa trilha sonora, boa estória... enfim um filme bom, mas nem me ative a detalhes. Estava tão ansioso para ver Kátia, que qualquer produção por mais surpreendente que fosse seria ofuscada por ela, e neste caso “A cidade” não era mesmo surpreendente, apesar de ser emocionante e tratar do isolamento de idosos com hanseníase em Itapuã, Rio Grande do Sul. Kátia também não é surpreendente, todos já a conheciam. No entanto é um filme com uma densidade lírica intensa que tomou toda minha atenção.
Acima de qualquer outra característica, uma que prevalece neste filme de Karla Holanda é que ele é divertidíssimo e não porque a diretora obstinasse uma comédia, e empastelasse a vida desta travesti, que foi a primeira travesti eleita a um cargo político no Brasil. Inclusive uma das discussões de corredores após o aclamado filme, é se os risos angariados eram “opressores” ou simplesmente “inocentes”. Se alguém riu para debochar dela, este alguém riu por conta, pois o filme foi conduzido de maneira tão honesta que não dava brechas para que a figura desta grande personagem fosse subjugada. Eu ri diversas vezes ao longo do filme, e não porque Kátia estivesse sendo ridicularizada, mas porque ela possui uma irreverência tão autêntica e regional que ficamos abobalhados de situações e expressões aparentemente chocantes/impactantes que ela aborda com a maior naturalidade.
Mas além de risos este filme traz reflexões muito importantes que são apresentadas de maneira bastante sutil sem ser piegas, ou ser didático. Uma delas é sobre o sertão piauiense: a buraqueira na estrada, a secura, a labuta, a beleza do sertão... Tudo com uma fotografia que a meu ver é muito dinâmica, numa paisagem onde predomina certo tipo de imagem. Houve uma diversidade deliciosa que ia da aridez à chuva, de feiras e açudes à parada gay e boate. Claro que a multiplicidade da vida de Kátia ajudou neste trabalho, mas a sensibilidade de perceber estes extremos e a maneira que foram se conduzindo realmente é peculiar. A trilha sonora de Rita Ribeiro e Felipe Pinaud me encantou: sutil e intimista.  Mas como não sou profissional e não entendo das técnicas só posso afirmar que o mais interessante é que esse processo se deu da maneira mais simples do mundo, sem apelo ao exotismo ou quaisquer exacerbações.
Espontaneidade é algo que definitivamente permeia o filme inteiro. Mesmo quando Kátia tenta, explicitamente, direcionar a câmera e pessoas roteirizando “cenas” para que ela saia bem na fita, mesmo quando ela faz uma auto propaganda usando o filme como trampolim político, ou quando intervém em depoimentos para se favorecer... tudo se dá de uma maneira absurdamente natural provocando o riso e uma certa admiração por esta travesti que tenta se sobressair de maneira quase ingênua. O grande trunfo de Karla é que ela nos leva para os universos de Kátia de uma maneira extremamente sutil, sem alardear a “anormalidade” de uma travesti 03 vezes vereadora e vice-prefeita em pleno sertão nordestino, no município de Colônia do Piauí. 
Conhecemos a família, o trabalho, a política, a espiritualidade, a propósito, as cenas que retratam a espiritualidade dela para mim são as mais emocionantes. Neste momento sentimos Kátia de peito aberto, com a alma desnuda, ainda que queira fazer um charme para câmera, seus cantos de santo se sobressaem admiravelmente poéticos. Ao adentrar no mundo multifacetado de Kátia esperava algo tenso, politizado, repleto de problemas e superações. As dificuldades existem e são mostradas no filme, mas não são o cerne da história. Por exemplo, na fala inicial Kátia conta que seu pai lhe dizia: “O homem que vai ser viado tem que morrer!”. Ao contar isso não existem grandes mágoas, sem conflitos psicológicos ou dramas existenciais. É apenas a vida dela que grita em pleno semiárido piauiense, mas ela não faz questão de se alardear por isso. Tem orgulho de sua história e de suas conquistas, mas a simplicidade de seu cotidiano é maior. É uma vida extraordinária que poderia ser retratada de um jeito dramático e comovente, empunhando bandeiras e incitando piedades, mas é filme desinibido sem pretensões óbvias e grandiosas que. Karla Holanda não cai no engodo de idolatrar, analisar ou julgar a documentada. Com muita sabedoria e um quê de bucolismo conseguiu captar toda singeleza da essência exótica e extremamente simples de Kátia.


Discussões sobre a situação e rumos do cinema nacional


Vicente de Paula



Hoje aconteceu o 2° dia do 45° Festival de Brasília de Cinema Brasileiro. As discussões e seminários desta edição são interessantíssimos, embora frequentemente tenha a sensação delas serem cíclicas e sem direcionamentos concretos. Ontem participei de um diálogo sobre cinema infantil e hoje à tarde participei do “Seminário Tendências do Cinema Contemporâneo: Gêneros Cinematográficos e suas interfaces” mediado pela professora de audiovisual da UnB, que para minha grata surpresa descobri que uma piauiense de Teresina. Na mesa estavam presentes Ataíde Braga, Eduardo Santos Mendes, Guile Martins e Adirley Queirós.
No geral, as falas deste seminário traçaram importantes conclusões sobre atual situação do cinema brasileiro. Sobretudo no que diz respeito à questão de gênero e temática do nosso cinema. O que ficou nítido é que todos os palestrantes concordavam que esta questão de gênero é complexa e difícil de classificar, de modo que preferiam se referir a temática dos filmes. Eduardo Santos Mendes até brincou com essa questão dizendo que nas locadoras o cinema brasileiro é classificado como cinema brasileiro, não há subdivisões em drama, comédia, terror... apenas cinema brasileiro. De acordo com a observação dele essas subdivisões existem para filmes estrangeiros e não para produção nacional. Os motivos disso? Nada justificado claramente. Especulou-se inclusive o fato da cultura brasileira ser tão complexa e misturada faz que os filmes acabem por perder determinadas taxações de gênero. Não sou nenhum especialista no assunto, mas na prática percebemos que existem divisões sim e classificamos invariavelmente ainda que erroneamente. Se existe ou não existe gênero e quais critérios para definir não foi algo explicado no seminário, aliás, o tema que mais ganhou dimensão foi o da produção/exibição/distribuição de filme. Na verdade, esse tem sido tema recorrente em todas as mesas que tenho participado.
Ataíde Braga é incisivo nas suas opiniões sobre esse e outros tantos ele fez o questionamento que achei bastante oportuno: “Pra que produzir tanto? Pra não exibir nada?! Pra não distribuir nada?!” Paira a dúvida no ar. O que se tem certeza é que a qualidade de muito dessas produções é bastante duvidosa e as questionamentos sobre essa problemática beira questões filosóficas: Afinal ser ou não ser filme? Ser ou não ser cinemas? Segundo Ataíde muito desses produtos de fato são filmes, mas daí chegar a ser cinema o caminho é outro. Segundo ele, as produções brasileiras são caretas e que nesta última década foram produzidos 680 filmes, dos quais apenas 100 foram para o mercado. Não cabe a mim traças as coordenadas deste caminho. Acredito que só estudiosos e analistas de cinema podem determinar o que de fato seja cinema. O que tenho certeza, em concordância com Ataíde Braga, é que não dá pra determinar tais critérios baseados meramente na massa e em bilheterias astronômicas. Dentro dessa questão da produção cinematográfica é interessante também o ponto de vista de Adirley Queiróis e suas opiniões sobre editais e cinema de periferia. Para ele é preciso romper preconceitos com a produção dependente de editais juntamente com a discriminação sofrida pelos periféricos. Ele defende que os cineastas devem sim buscar editais, principalmente porque cineastas precisam se manter. A respeito da exibição ele fala que fatalmente muita da distribuição tem sua potencialidade fadada a escolas, ruas, Feira do rolo... e precisa urgentemente se expandir e extrapolar os guetos.
Diante da explanação de frustrações, opiniões, dramas particulares, verdades universais contestáveis, teorias cinematográficas... É que fazer cinema de qualidade é uma pedreira, e que os canais e oportunidades são muitos, mas ainda assim emplacar com um filme não é uma tarefa fácil, parecendo-me até que é uma coisa muito de momento e de sorte, talvez de moda como teria dito Ataíde Braga. Inclusive uma dos posicionamentos dele que clarificou na minha mente a função do cineasta e do artista de um modo geral. Segundo ele os cineastas não se preocupam com a distribuição e exibição de filmes. Até aí achei uma leviandade, uma negligência... mas ao concluir seu pensamento alertou que a preocupação do verdadeiro cineasta é com a percepção, com as leituras, com o aprofundamento das discussões da sua obra e não necessariamente com o público que vai consumi-la, mas com o público que vai analisá-la. Assim deve ser o artista; Sempre atento em promover reflexões e sensações que provoquem diálogos e transformações não se limitando a reproduzir mediocridades e “coModismos”!  

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

TODAS AS LUZES PARA GUAYASAMÍN



TODAS AS LUZES PARA GUAYASAMÍN
“Deixem sempre uma luz acesa. Eu retornarei”(Guayasamím)
Menina  Chorando, óleo/tela

            Na entrada do Museu da República depara-se com os croquis do pintor equatoriano Oswaldo Guayasamín. Já desponta aí uma profunda emoção e, sobretudo pra mim um sentimento terno auto-identificação com seus rabiscos magistrais. A tinta sobre cartolina, alguns traços sujos, outros impecáveis, de tinta, de lápis, de aquarela e etc. Enfim materiais e papéis relativamente simples ganham uma exuberância incrível nos traços de Guyasamín.
Depois percorrer as telas. E que primor de telas. As primeiras possuem um ar realista moderno com um quê expressionista. As texturas despertam uma vontade louca de tocar nas telas. Entretanto é importante preservar o trabalho desse mestre e mantenho todo meu contentamento apenas diante de meus olhos. Algumas destas telas inclusive, me lembram o modernismo brasileiro nas figuras de Di Cavalcanti e Portinari como pode-se notar nas telas “A colheita” - 1939; “Trabalhadores” e “Greve Hoje” de 1942. A beleza e a temática já revelam a importância político-social deste artista.
Se as personagens nas telas impressionam, as paisagens não deixam a desejar. As telas sobre Quito são encantadoras e revelam as facetas de olhar sensível e apurado capaz de captar as visões mais deslumbrantes da sua cidade natal, Quito. A beleza dessa percepção é explícita nos óleos sobre tela “Quito Verde” de 1942, “Quito Negro” de 1969, “Quito Azul” de 1970.
Finalmente alcanço as memoráveis e talvez mais famosas obras de Guayasamín: os clássicos olhos, mãos e bocas desfigurados de caráter cubista/surrealista que parecem carregar consigo a maior dor do mundo. Observando a tríade “MÃE I, II e III”, as três de 1969, podemos compreender o significado de uma das belas frases que percorrem a exposição: “Minha pintura é para ferir, para arranhar e golpear o coração das pessoas,para mostrar  que o homem faz contra o homem.” Este significado é reforçado por telas mais politizadas e tão chocantes como “Pinochet” de 1976 e “Homenagem aos mártires” de 1963-1965.
Todas as vertentes e estilos de Guayasamím podiam ser percebidos nesta exposição. Das telas mais sombrias e trágicas as litografias e serigrafias alegres coloridas. As esculturas de argila, cerâmica, madeira e bronze. Das obras de arte sacra e no centro, onde se exibia vídeos sobre o artista e brilhava a “chama eterna pela paz e os Direitos Humanos.”
O mais interessante desta rápida e singela visita vespertina, além das obras é claro, era o fato de frequentemente estar cercado por um grupo de crianças acompanhados de suas respectivas professoras. No meio de obras tão intensas e pinceladas dramáticas eis que me deparo com a ingenuidade e dispersão natural das crianças, que após o passeio se dirigiam a um espaço reservado onde podiam desenhar e literalmente fazer arte. Olhando os pequeninos senti que, como Guyasamím queria, uma luz poderia se manter acesa para que ele voltasse.

                                                                             Vicente Leite