O amor pela arte que consome a
todos nós
Vicente de Paula
Esta
noite não tive que pedir licença as árvores para tolhê-las de suas flores. Os
jasmineiros do CCBB - Brasília (Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília)
estavam tão floridos que havia várias flores lindas espalhadas no gramado. O
CCBB é um lugar incrível! Adoro ir lá, principalmente agora que os cinéfilos e
críticos do 45° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro reclamam da acústica
do Teatro Nacional, preferindo as exibições que são reprisadas gratuitamente na
sala de cinema do CCBB. Eu não sou profissional e para mim as diferenças não são nítidas.
De
qualquer modo prefiro o CCBB. É um prazer enorme percorrer aqueles jardins
sentindo o perfume dos jasmins, a brisa fria e a beleza das flores em suas
plantas originais iluminadas na penumbra noturna e por luzes
artificiais. De certa forma é essa sensação de assistir “Esse amor que nos
consome”, de Allan Ribeiro, vencedor do prêmio de melhor montagem. É como ver a
beleza da vida no escurinho de uma sala, iluminada pela luz refletida na tela.
O
filme tem o clima muito forte de documentário, os personagens são reais, talvez
a história seja de ficção, sendo por isso classificada como longa de ficção. No
entanto, a realidade está a flor da pele no cotidiano de um casal de artistas, bailarinos
de idade avançada. Mas esse detalhe é quase
irrelevante, já que eles tem uma vitalidade vigorosa na empreitada de produzir
um espetáculo e se manter no casarão, onde realizam suas atividades e que está
a venda.
Mais
uma vez a autoidentificação foi imediata. Aliás um filme, uma peça, uma tela, uma
escultura... uma obra de arte marca uma pessoa quando existe um sentimento
identitário, quando ela consegue mexer com as memórias e vivências pessoais de
alguém seja por qual motivo for. Quando a gente se vê na obra de alguma
maneira, significa que a arte está cumprindo uma das suas funções primordiais:
cativar/envolver o público. Este filme, especificamente, me atingiu em cheio,
porque aborda o universo de uma companhia de dança. Eu já fiz um ano de teatro
e sou um apreciador nato. Teatro está intimamente ligado ao mundo da dança:
ambos trabalham a linguagem corporal! No entanto nunca consegui disciplinar meu
corpo de uma maneira que se conectasse absolutamente ao pensamento. Até minha
mente tumultuada eu consegui dominar na medida do possível, mas meu corpo é
uma ferramenta que não tenho total controle, não a ponto de unificá-lo com a
mente.
É
essa temática que é abordada no filme. Tomando por mote e por fundo o casarão
que está à venda, é o lugar onde toda a arte acontece. A partir disso narra-se o
cotidiano, o trabalho, os sentimentos, as pequenas discussões, os ensaios, a
monotonia... em fim toda a vida destes aristas que gira em torno da montagem do
espetáculo “Esse amor que nos consome”. Durante a construção desse espetáculo,
vemos cenas belíssimas das ideias, dos ensaios, figurinos, músicas... é tudo
sensivelmente belo. As várias cenas que remetiam a espiritualidade na vida
artística deles me despertou mais uma vez profunda identificação. Rubens, um
negro com tudo em cima e vaidoso, é filho de Iansã, embora todos achem que ele
seja de Oxum, por causa da vaidade. Todo instante ele reintera que virou no
santo e é filho de Iansã e Oxumaré. A casa onde vivem e trabalham é frequentemente
visitada por compradores. No entanto, um Exu grande e viril, que só nós vemos,
acompanha tudo guardando a arte naquele lar. É uma abordagem muito bonita que
traz os encantos e riquezas das “religiões afro-brasileiras”.
Um
filme sem dúvidas poético, que vai muito mais além do retrato do dia-a-dia anacrônico
desses artistas. Um olhar que vai fundo e consegue captar a beleza da arte nas
pessoas enjeitadas, na casa, no dia, na noite, no mar, nas ruas, na cidade... Em
tudo se consegue impingir a presença marcante da arte. É um filme que atinge
principalmente “artistas profissionais”, mas não abarca somente os de fato e de direito, mas também aqueles que no fundo da alma são artistas. Os amadores, e/ou quaisquer seres humanos que guardam em seu interior um
artista recolhido e desapercebido, por causa da realidade tirana em que se vive. Acredito
que seja essa a função deste filme: despertar o artista que vive em todos nós,
nos fazendo entender que a arte está em todo lugar e em todas as pessoas. Pronta
para consumir perdidamente, aqueles que ousam se entregar plenamente a sua
poesia!









